A antiga Oca

O Parque Ibirapuera, pulmão da cidade, sempre teve muitas atrações, que mudavam conforme a época. Já teve seu tempo de encontro de motocicletas, do qual participei umas vezes e que carregava romance e perigo pelo parque todo.
Os belos tempos do saudoso Planetário, que iniciava suas sessões com o entardecer, o Sol se pondo atrás da linha do horizonte, com prédios simbolizando realísticamente a cidade. E logo as estrelas começavam a surgir, fascinando a platéia. Sempre se ouvia um "Ohhh!", meio abafado.
A atual Oca já era também um museu, com exposições fixas. Pagava-se o ingresso, e o andar térreo era dedicado a Santos Dumont, aos primórdios da aeronáutica e á era espacial.
Lembro-me de uma vez que lá fomos. Meu filho teria seus três, quatro anos. Começo a ouvir insistentes apitos de advertência. É que ele, para ver melhor os objetos, encostava nas cordas que os cercavam, e só por isto uma neurótica funcionária trilava seu apito histérico. Dei uma bronca nela, pois era um absurdo. A criança nada estava fazendo de mal ou proibido.
E viramos-lhe as costas, deixando-a resmungando, curtindo sua rabugice sozinha. Era o contraste absoluto, uma pessoa ignorante e totalmente despreparada, uma Neanderthal surgida entre os satélites e artefatos da fase NASA.
Descendo, aumentava o cheiro de mofo e antiguidade. Era o Museu de Aeronáutica. Lá estava o famoso Jahu, um Savoia-Marchetti que havia feito a travessia do Atlântico. Um de seus pilotos era meu parente, o comandante João Ribeiro de Barros. O monoplano de Ada Rogato, também de longos percursos. Tempo de pioneiros. O poderoso Thunderbold, avião de caça usado na Campanha da Itália, ostentando uma avestruz, desenhada pelo piloto Fortunato Câmara de Oliveira, e o dístico "Senta a Pua!"
Onde terão ido aterrisar todas estas naves, em seu vôo final?
Subindo uma escada rolante, desembarcávamos no Museu do Folclore. Sortidas e variadas coleções de arte popular, vindas de todos os cantos do Brasil. Mamulengos e Bumba-meu boi do nordeste, jangadas do Ceará, Exus baianos, Cabeções do Carnaval pernambucano, casa de pau-a-pique caipira, o Judas de Itu, enforcado e com um diabo a cavaleiro nas costas. E muita coisa mais.
Havia mais um pavimento acima, talvez dedicado a aulas e estava sempre fechado. Olhando para o alto podíamos ver alguns de seus fascinantes bonecos, pois o espaço era vazado, com cercas baixas. A Oca, que não tinha ainda esse nome, era como uma nave espacial estacionada no parque. Não muito longe da bela escultura em espiral, símbolo do IV Centenário, estranhamente desaparecida.
Uma nave que nos levou a lugares fantásticos, a estranhos planetas que convivem no imenso Brasil. Tudo isto por pouco dinheiro, e bem perto de casa.