Relógio Sicura

De repente, todos na minha rua tinham um no pulso. Preto, com ponteiros luminescentes, todo em aço cromado. Na parte de trás tinha gravado em relevo um mergulhador que parecia o velho Mike Nelson dos seriados de TV. Fiquei louco! Comecei a cercar meu pai para me dar um, mas mistério: onde comprar? Quanto custava? Meu pai poderia comprar?

Reparava que toda menina ficava olhando o relógio magnífico no pulso dos amigos e eu sem nada a mostrar ficava sonhando com o dia em que meu pai finalmente me daria um, mas devia ser tão caro que na certa ele não poderia comprar.

Uma vez, na casa de um amigo que morava numa chácara com piscina nas Palmas do Tremembé, eu via os amigos mergulhando nas águas e, para meu espanto, estavam com o famoso relógio no pulso. Meu Deus, então era verdade mesmo! O símbolo do mergulhador atrás não era por acaso e a palavra "submarine" abaixo do nome no mostrador tinha afinal sentido.

Eu sonhava com ele…

Um dia sonhei que tinha um também e, ao ir à escola, de repente me vi sem ele, haviam roubado! Acordei chorando assustando minha mãe, mas no fundo aliviado por perceber que tinha sido apenas um sonho. Eu não havia perdido nada! Depois me dei conta que não poderia perder algo que não tinha.

O tempo foi passando e nada, continuava sem o relógio.

Um dia na hora do jantar, sentados a mesa, meu pai começou falar coisas de suas rotinas de trabalho e num gesto assim, meio teatral, ergueu o braço esquerdo e deixou escorregar a manga de seu paletó, expondo em seu pulso a coisa magnífica! Eu vi deslumbrado o relógio Sicura no pulso de meu pai, que me olhava sorrindo. Ele tirou e o deu para mim que, lentamente, olhando para seus olhos amorosos, fui colocando no pulso, e com orgulho pude ver que graças a meu pai eu também tinha um.

Muitos episódios de minha vida esse relógio marcou: os amores, as partidas, os encontros e desencontros. Marcou com seus ponteiros luminosos e seu passo suíço minha esperanças e conquistas, como também as perdas e os vazios. Foi muito mais que um relógio.

Até hoje, mais de 40 anos depois, ao escrever esse texto, com ele aqui na minha frente, por um fugaz minuto seu mostrador se esfuma e nele, em meio à bruma, diviso o olhar de meu Pai. Esse sim, eterno como o tempo que ele marca.

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