Estive em São Paulo no ultimo final de semana. Pra variar essa cidade me enche de energia e retorno ao Centro-Oeste cheia de garra, planos e vontade de trabalhar.
O Hotel que costumo ficar na Rua Itapeva estava lotado e resolvi arriscar em um outro três estrelas na altura do numero 800 da Rua Augusta, que aliás, além de ter ótimo preço, oferece um serviço impecável com direito a um café da manhã delicioso e uma equipe muito cordial.
Nos arredores do hotel, um publico pouco convencional; um ambiente extremamente underground onde as mais variadas “tribos” parecem conviver em harmonia. Daquele ponto da Augusta até a Av. Paulista encontrei intelectuais famosos, artistas, celebridades, jovens, idosos, alcoólatras, dependentes químicos, moradores de rua…
Nesse momento me lembrei da Augusta da minha infância. Eu devia ter uns seis ou sete anos quando meu pai foi trabalhar por alguns meses em Santa Catarina.
Aos sábados, lembro que ficava muito melancólica e minha mãe (sempre ”mãezona”) pegava os poucos trocados que tinha para pegar o trolebus que nos levava do bairro do Belém até a Rua Augusta. Na época cheia de classe e glamour.
Os cabos do trolebus caiam da rede elétrica a toda hora e muitas vezes demorávamos duas horas pra chegar lá.
Lembro que em uma esquina da Augusta, acho que era esquina com a Antonio Carlos, existia uma padaria. Lá a gente sempre parava pra comer um docinho.
E assim em meio aquele encantamento de luzes, vitrines e pessoas eu retornava para casa, já mais risonha e menos melancólica.
Assim a Augusta se tornou, naquela época, a minha referência de alegria, a minha terapia, a amnésia da ausência e da saudade.
Mais de 30 anos se passaram e a padaria do docinho não existe mais. As lojas chiquérrimas deram lugar a boates, os adolescentes não se contentam mais com os doces da padaria. Hoje as garrafinhas de Ice e os copos de cerveja ocupam suas mãos.
Fico pensando em como fui feliz. Graças a mãe que contou os trocados pra pagar minha passagem e meu doce, tive uma estrutura de vida que levo até hoje.
Fiquei imaginando por muitas vezes os corações dessas mães que não sabem por onde andam seus filhos e como voltarão pra suas casas.
Eles também devem sentir falta do aconchego de seus lares. Há quanto tempo será que não sentem o calor do abraço de seus pais.
Olho a minha Augusta que continua charmosa, unindo pontos estrategicamente fantásticos de São Paulo. E vejo que minha Augusta continua com o mesmo poder de sedução e deslumbramento. O que mudou é apenas o publico que passeia por ela. O que mudou foi a importância de uma instituição chamada família, o significado de uma palavra chamada respeito. Respeito pelo próximo, pela família, por si próprio. O que mudou foi a relação com o mundo. Onde aproveitar a vida é se deixar corroer por modismos, bebidas, drogas e orgias.
Não… Não sou moralista. Nunca fui santa. Já tomei meus porres, já amanheci na rua, já tive meus casos. Mas, sempre procurei me amar em primeiro lugar, a valorizar o que tenho em mãos, a priorizar sentimentos verdadeiros.
Talvez falte na Augusta o que falta no mundo. Mães que contam trocados para amenizar a dor de seus filhos, famílias que se amem verdadeiramente e priorizem o que realmente importa.
Sou feliz, pois tive tudo isso! Muitas vezes faltou dinheiro, conforto, roupas legais, mas jamais me faltou amor. Obrigada meus pais! Sou grata a vocês por terem me mostrado um mundo de verdade. E por terem subido a Augusta comigo, sacudindo dentro do trolebus.
Hoje sou eu que os leva a passear pelas ruas de São Paulo, aproveitando tudo que a cidade tem de melhor. Inclusive a Augusta com 14 graus… Purgatório da beleza e do caos!
Até a próxima São Paulo!
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