O Astra maldito

Tem dias que se chover sopa, com certeza você vai estar de garfo. Meu querido amigo Carlito, foi um belíssimo exemplo disso.

Para se ter uma ideia, em 1960 nós dois trabalhávamos em uma loja de roupas masculinas na Rua Sete de Abril, quase esquina com a Xavier de Toledo. Um dia Carlito chegou pela manhã todo eufórico e ansioso, dizendo que havia sonhado a noite inteira com a milhar 6.666.

Morador que era do Bairro da Água Branca, Carlito pegava o ônibus perto do Largo Padre Péricles em Frente o Cine Esmeralda. Naquela linda manhã de verão, ele saiu de casa com aqueles 6.666 na cabeça, deu sinal para um ônibus escrito “Cidade”. Depois que o ônibus parou, ele notou que o número do mesmo era 66. Quando foi passar a roleta, percebeu o número 666 no boné do cobrador, que era seu número como funcionário da Antiga CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos.

E, então, quando ele contava para nós, seus colegas essa história, dizendo que iria jogar no bicho, entrou um freguês. Ele foi atender e o mesmo comprou meia dúzia de cuecas.

Essa meia dúzia, logo traduzida para 6, fez até Carlito mudar os planos. No lugar de jogar no Bicho, ele decidiu ir até uma quitandinha, e arriscar essa "barbada" em um dos páreos.

E não deu outra: na hora do almoço, depois de pedir um vale para o dono da loja, lá foi o "sortudo" Carlito arriscar ganhar uma grana na quitandinha do Jockey, que se não me engano ficava bem pertinho da Rua Barão de Itapetininga, entre a Rua Dom José de Barros e a Praça da Republica.

Carlito voltou super eufórico, dizendo que jogou no cavalo nº 6 no 6º páreo e que tinha certeza que a sua sorte dessa vez não seria ingrata. No dia seguinte, tudo permaneceu bem claro e, lógico, no sexto páreo o cavalo nº 6 chegou como sugeriu o palpite, ou seja… Em 6° lugar.

Ano passado, Carlito precisou resolver uns negócios no centro de São Paulo e como havia levado seu carro para a devida revisão, pediu emprestado o carro do filho que o mesmo havia comprado um mês antes. Um Astra preto, ano 2010.

Carlito entrou no carro, foi para o centro de São Paulo e como o carro era novo, decidiu por segurança, enquanto resolvia seus assuntos, deixar o carro em um estacionamento da Rua Major Sertorio.

Na volta, entregou o canhoto na portaria do estacionamento e esperou até o momento em que o manobrista voltando entregou-lhe o Astra preto. Carlito entrou no carro e saiu do estacionamento dirigindo-se sem mais delongas, rumo ao bairro da Penha, onde ele mora atualmente.

Acontece que o manobrista, no lugar de entregar o carro preto do filho dele, por engano, entregou um Astra do mesmo ano preto igualzinho o carro que Carlito havia pedido emprestado ao filho, e como o mesmo não estava familiarizado com o carro, não notou nenhuma diferença.

Quinze minutos depois, o dono do carro que Carlito recebeu do manobrista chegou. O engano foi percebido, então, houve aquele bate-boca entre o pessoal do estacionamento e o proprietário do carro que agora, mesmo contra a vontade, já estava fazendo parte do “MSC”: “Movimento dos Sem Carro”.

Enquanto o pessoal do estacionamento revirava o Astra do filho do meu amigo, procurando um telefone ou mesmo um endereço para comunicar o engano, o proprietário, irritado, saiu do estacionamento, ligou para a polícia dando queixa do furto de seu veículo! Resultado? Carlito foi parado por uma viatura policial e "gentilmente" conduzido a uma delegacia, como suspeito de roubo de carro.

Depois de umas longas horas de conversa "espontâneas" com o delegado, Carlito só foi liberado muitas horas mais tarde depois da chegada do filho e do proprietário do “Astra maldito”.

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