Olá a todos! De todas as coisas que passei nessa vida, poucas foram aquelas que me fizeram mudar meu jeito de pensar ou minhas vontades. Você já deve ter visto meu tipo, carrancudo, cara fechada, "não" pra tudo… Enfim, o eterno “cabeça dura”.
Mas fui tomado pelo mal que inconsequentemente nos domina: o amor, sim, o "amor". E, como você deve bem saber, enquanto estamos sob sua dominação, acabamos por relevar muitas coisas e, apesar de minhas públicas declarações de não abandonar minha querida Vila Maria, bairro onde nasci e fui criado, acabei forçosamente indo morar na Freguesia do Ó. Não sem muita resistência, mas as mulheres têm alguma coisa que nos faz mudar de opinião facilmente, não é mesmo?
Foi com uma cinematográfica cara de ovo (como diria minha esposa) que passei meus primeiros dias na Freguesia. Não saía de casa a não ser para ir trabalhar, relutava em dar um mísero passeio, preferindo mil vezes a companhia de nosso cachorro do que sentir aqueles ares estranhos entrando em meus pulmões.
Mas certa vez não teve jeito; minha mulher estava com desejo de comer pastel de banana com uva passa (sim, minha mulher estava grávida). Tive que sair quase meia noite, nessa caça. Havia uma pastelaria lá perto e como era sábado ainda estava aberta.
-"Queria um pastel de banana com passas, por favor." Pedi no balcão.
– "Ah, meu filho!" respondeu a atendente…
– "Pastel de banana a gente até tem, mas com passas, nuca vi nem ouvi."
– "E se eu comprasse as passas, vocês fariam para mim?" perguntei.
-"Olha, só oferecemos os pastéis do cardápio…"
– "Mas minha mulher está com desejo, está grávida…"
Como se tivesse dito palavras mágicas, a atendente concordou de fato em preparar se eu trouxesse as frutinhas, mas deveria ser rápido, pois eles estavam quase fechando.
Ai então começou outra luta: onde encontrar uva passa para vender a essa hora, sem carro ainda por cima? Suei frio, não conhecia o bairro direito, saí em disparada a procura de um táxi. Encontrei um vago passando perto do cemitério, na Avenida Itaberaba.
-"Ei! Ei, taxista!" – gritei entrando na frente do táxi parado no semáforo.
O rosto do motorista empalideceu. A essas horas, naquele local, vestido de pijama, só poderia ser um fantasma ou um bandido.
Ele, em completo desespero, gritando:
– "Não faça nada comigo, pelo amor de Deus!", desafivelou o cinto e estava prestes a sair em disparada do carro, quando consegui explicar-lhe minha situação.
-"Ufa, que susto você me deu. Mas te entendo, sei como são esses desejos de mulheres grávidas, passei por duas gestações com minha mulher."
O taxista então me levou voando para um supermercado vinte quatro horas. Fiquei super-amigo do motorista, conversamos bastante sobre gravidez e filhos, ele até me fez um desconto na corrida.
Comprei as passas, voltei à pastelaria, comprei o pastel e levei para casa. Chegando lá, me sentindo um verdadeiro herói, entrei no quarto e me deparei com minha esposa dormindo. Acordei-a aos beijos e disse:
– "Amor, olha só o que eu trouxe…”
– "O quê?" perguntou-me.
– "Ora, seu pastel de banana com passas!"
Ela foi logo pro banheiro vomitar depois que eu cheguei com o pastel perto do seu nariz para ela sentir o cheiro.
-"Amor, acho que na verdade eu queria mesmo um só m pouco de pinhão."
Ao grão, guerreiro!
Apesar de tudo, hoje meu filho tem cinco anos, nasceu e foi criado na Freguesia. Vamos todos os dias passear com o cachorro na pracinha perto do Hospital Penteado, compramos gibi no sebo da Itaberaba, vamos à biblioteca Cruz das Almas, vemos as barraquinhas de artesanato no largo da Matriz nos finais de semana e sempre damos uma espiadinha no relógio da igreja quando estamos atrasados para a escola.
Sinceramente, não me vejo morando em outro lugar. Outra coisa: todas as sextas vamos comer pastel de banana com passas naquela mesma pastelaria, que acabou incluindo o tal pastel no cardápio.
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