A decepção do "sonho americano"

Recém-inaugurada, se não me engano, em 1947/49, a Sears Roebuck propagava as famosas calças "Rancheiro", da Alpargatas, o famoso "jeans" que os americanos usavam (e usam) no dia a dia, como se fora um uniforme que transformava a juventude sem estilo definido como integrado na cultura norte americana. E eu não escapei dessa influência.

Na época, trabalhava com meus irmãos na distribuição de gêneros alimentícios, por atacado, principalmente aos feirantes onde o único lucro compensador que tive foi conhecer minha companheira Myrtes, comigo há 62 anos. Passávamos pela Av. Paulista, em direção à Praça Oswaldo Cruz quando meu irmão Santo lembrou da nova loja que foi inaugurada, há pouco aí no fim (ou começo) da Paulista, a Sears. “Tem de tudo lá, vamos dar uma olhada?”.

Lembrei que o anúncio no jornal "A Gazeta", "berrava" uma propaganda da Sears falando sobre a "nobre calça". Vocês podem imaginar o que era ter uma calça Rancheiro naquela época? Menino, eu que era "vidrado" em tudo que fosse americano (hoje, o vidro um pouco ofuscado, mas ainda transparente), apesar de meu pai ser mussolinista e com muita influência sobre nós, seus filhos, pra mim o maior desejo era ir pra casa do meu tio, João Batista, que morava em Nova York. Ele era irmão mais novo de meu pai e mantinha correspondência constante conosco. Depois de muitos anos, fiz a tão sonhada viagem, mas, tanto meu pai como meu tio João já tinham falecidos. Mas isso é outra história.

Entramos na loja. Um deslumbre. Eu e meu irmão fomos bem atendidos, ofereciam desde um simples boné até o mais luxuoso conjunto de móveis, vestidos, casacos, eletrodomésticos, roupas para homens, mulheres, crianças, brinquedos… Fiz até um comentário com o Santo: "Essa loja vai acabar com o Mappin".

No roteiro, dei de cara com o jeans exposto. Não me lembro do preço, mas me encantei com os "pantalones"(calça). Compramos e me preparei para vesti-la e me exibir na quermesse do São Vito. O primeiro e único jeans da turma.

Mas que decepção… A maioria dos meus amigos, todos com calças sociais, num sábado à noite e o pior: os bolsos tão apertados que eu não conseguia pôr um lenço sequer num dos bolsos. “O que é que os americanos viam naquela roupa?”, pensei. “Apertada nos canos, incômoda, azul que chamavam de ‘indigo’…”. Sentia-me um papa-mosca dentro da indumentária. Mas mantive a pose! Minha calça era idêntica a dos cowboys, só não falei que era americana porque tinha na cintura o logo "Rancheira". Pequena decepção do "sonho americano".

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