Fotografia no Segall

Como acontece ainda hoje, o Museu Lasar Segall coloca a disposição de frequentadores e usuários a oportunidade de praticar diversas atividades culturais como atelier de pintura, gravura, desenho e escultura, cinema e fotografia, com orientadores habilitados.

Comecei a frequentar o laboratório de fotografia do Museu Lasar Segall nos anos 80.
Entrava quase furtivamente, revelava o filme ou ampliava algumas fotos e saia de “fininho”. Passei um bom tempo assim, sem me integrar com os outros frequentadores do laboratório.

Tinha certo medo de “avaliações” e dos direcionamentos temáticos praticados no grupo. Mas enfim, depois de ter parte de minhas fotos selecionadas e expostas na Funarte (em julho de 1986), criei coragem e enfrentei os “brutos”.

Parando de mansinho na mesa de conversações, de vez em quando, fui vendo e mostrando fotos até que me senti aceito. Comecei a participar dos workshops (saídas em grupo para fotografar) que aconteciam naquela época aos sábados ou domingos, alternadamente. Sempre pela manhã, nos reuníamos em frente ao museu. Havia até 15 minutos de tolerância da hora marcada (09h30minh) e dando “cuorom” ou não, tomávamos o metrô e a cada saída, um novo destino: geralmente na região central ou próxima ao centro.

Subitamente voltávamos a tona: Praça da Sé, Liberdade, Anhangabaú, Largo São Francisco, Bela Vista do Bexiga, Parque Dom Pedro II, Avenida São João, Ipiranga, Praça da República, Bom Retiro, Campos Elíseos, Barra Funda, Santa Cecília, Brás até o Tatuapé.

Algumas pessoas, curiosas, não atinavam com aquele bando de “malucos”, apontando suas câmaras para o “nada”. Difícil determinar o plano fotografável. Não havia “retrato”.

Alças no pescoço, enroladas no punho, segurando máquinas diversas: Olympus, Nikons, Canons, Praticas, Yashicas, Pentax, Zenits, Leicas, automáticas, manuais, novas, velhas, semi-velhas, batidas, as "Rolleizinhas", com apego, quase fetiche.

Enxergando pelo visor, tentando ver algo que os “mestres” célebres registrariam em uma foto e ao mesmo tempo, achar uma expressão própria, descobrir o estilo pessoal.
Terminávamos cada saída, sempre indo a algum restaurante interessante, barato e de comida boa. Era quase ritual e chamávamos este gran finale de “workshop gastronômico”. Era muito bom e divertido. Sentiamos-nos seguros, felizes e concordados. Fluíamos em criatividade, que rendeu belas imagens e estímulos e amizade.

Aos sábados, participava da saída e almoço, voltava ao Museu Lasar Segall, revelava o filme e chegava a fazer algumas ampliações. Ficávamos lá até 22h30minh quando fechava o laboratório e o museu. Quase sempre íamos à pizzaria 1900, quando saíamos de lá. Íamos pela Rua Berta, atravessávamos a Domingos de Moraes, descíamos a Rua Cunha, dois becos até o Estado de Israel. Estes becos estão hoje interditados por muros erguidos pelos moradores.

Das imagens, fizemos uma mostra coletiva em 1987 no Centro Cultural de São Paulo, com o sugestivo nome de “Divercidades” (com “c” mesmo), se não me engano, por sugestão do Diório, um dos participantes.

Dos estímulos, rendeu profissões: a maioria dos participantes deste grupo se profissionalizou e trabalha hoje nos principais jornais e revistas de São Paulo. Para os que não se profissionalizaram como eu, ficou a paixão pela fotografia e atividades acessórias.

Das amizades, grande parte, ficamos ligados de alguma forma por esta convivência cultural. De vez em quando arranjamos pretexto para nos reunirmos. Pretexto fotográfico ou gastronômico. É muito bom!

A fotografia é aderente! Comer bem também!

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