Anos 1944\5, os garotos da minha idade, que moram tão perto do centro como eu, pouca atenção dão ao perfil da cidade, vista do lugar em que estamos, no Braz, bem próximos ao Palácio das Indústrias, no Parque Dom Pedro II, nas cercanias das ruas Santa Rosa, do Gasômetro, Carlos Garcia, Benjamim de Oliveira, do Lucas, da Alfândega, Álvares de Azevedo, Caetano Pinto, Carneiro Leão, etc. Reduto de italianos, espanhóis, libaneses, portugueses, japoneses e por aí a fora… Este perfil, cujo principal edifício se destaca dos demais, o imponente Martineli é o mais alto e o maior da América do Sul.<br><br>Os folguedos se resumem nas brincadeiras de rua (mãe-da-rua, palha-ou-chumbo, pega-pega), futebol, carrinhos de rolemã, triciclo, etc.<br>Bicicleta ninguém tem. Um dia, um "dos nossos", o Paulo Zupo, (já falecido, meio parente meu) aparece com uma tremenda bicicleta. Partes eram cromadas e na frente, presa no guidão, havia uma peça de aço retorcida tendo a letra "P" vazada, que depois vim a saber que era se referia a marca "PHILIPS", excelente bike inglesa. <br><br>Dar uma volta? Nem sonhar. O Paulinho, não deixa ninguém se aproximar. Vamos nos contentar na "alugação", nome que damos a uma bicicletaria, na rua do Gasômetro, que aluga por dois mil reis a hora. <br><br>Logo depois do término da guerra, o pai do Miguel Scárico, faz uma viagem pra Itália. Napolitano, trabalha com transportes de pequenas cargas, vai só e volta. Para alegria dos três filhos, traz presentes entre os quais uma bicicleta "Bianchi", de corrida, levíssima, toda de alumínio, guidão baixo (eu não me conformava com esse tipo de guidão, próprio pra corridas). A bike vai pro Miguel, da mesma idade que eu e o mais novo dos três filhos, Francisco e Alfredo. Alfredo, o mais velho se torna um bom cantor de canzonetas napolitanas, alegrando as cantinas do Braz. Os três eram bem gordinhos, mesmo assim, o Miguel chegou a jogar no São Vito e o Chico também. A família era composta de avó materna, mãe, pai e os filhos Alfredo, Chico e Miguel. Todos foram morrendo, não em seguida, mas com alguns anos de intervalo, sem terem casado e sem deixar nenhum herdeiro.<br><br>Vendo aquela bike, pedi uma a meu pai. Tinha um triciclo bem infantil que já passava para as minha irmãs mais novas, Rosalia e Joana, (esta última, falecida recentemente). Meu pai, coração de ouro, me dá uma bike, mas não de corrente. É de duas rodas, com pneus maciços, pedais de tração na roda da frente, sem rotação livre. Se quisesse parar, é só parar de pedalar.<br>Era fabricada nos moldes do triciclo, só que com duas rodas e bem grandes. <br><br>Nunca tive outras bikes, mas o que me diverti com essa, não está no gibi.Corro pra cima, pra baixo, cavalo-de-pau, sem mãos, (claro, guiava com os pés). Ia ao mercado, a "casa dos dois", levo até outro garoto no cano.<br>Uso e abuso da "coitada", o desgaste se manifesta. No "garfo" não tem rolamento algum e os pedais estão fixos na roda, ferro com ferro, atrito direto. Passava um pouco de graxa e pronto, já estava "nova". Quando o "garfo" se desgasta quase que totalmente, um bom arame resolve o problema por mais 10 ou 15 dias. Um dia meu pai pegou a minha bike, levou até a fábrica (Brinquedos Bandeirantes, alguém lembra…?), e ela volta "novinha", sorrindo pra mim, com se dissesse "você pensou que eu não ia voltar mais, é?”.<br><br>Gozei minha querida e saudosa bicicleta até eu crescer o suficiente pra namorar e casar. Comprar outra? Só pros meus filhos que se divertiram no Parque Dom Pedro II até sairmos do Braz, em 1969.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>