No ano de 1964, aos cinco anos de idade, fui vitimado por uma inflamação de garganta, que, complicando, evoluiu para uma nefrite, custando-me doze anos de tratamento e privações.
Deveria permanecer em repouso absoluto, coisa pouco viável para alguém daquela idade, pelo que, decidiu-se pela minha internação, no Hospital do Servidor Público Estadual, no bairro do Ibirapuera. Da janela de meu quarto, a paisagem era uma mata sem fim, escura e densa. Ao longe, via-se a pista do aeroporto de Congonhas.
Um enorme bonde, vermelho, apelidado de "camarão" trafegava pela via que hoje é a Av. Ibirapuera, fazendo estremecer todo o edifício. Ao final das tardes, olhava aquela mata, como se ali vivessem monstros, bruxas e índios canibais. Ali, sentia-me só e abandonado.
Desesperava-me vendo os meses passando e nada de alta. Sete meses se passaram, recebendo a visita de meus pais três dias por semana: as quartas, sábados e domingos, por uma hora.
Mas a alta veio, afinal. Recebi a notícia como um presidiário que recebe a condicional. Mal consegui dormir na véspera e, quando amanheceu, ansiando pelo médico que assinaria a alta, percebi algo estranho: estava com o corpo coberto de bolinhas vermelhas que coçavam como uma praga. Contraíra catapora e escarlatina, de quebra.
-"Esse menino precisa ir para o isolamento", foi a sentença decretada pelo medico que deveria dar-me alta, onerando em mais um mês meu suplício.
Esconjurando a sorte ingrata, fui levado ao décimo quinto andar, para um quarto isolado, onde via meus pais por uma janelinha na porta, precisando subir numa cadeira para alcançá-la. Revoltado, briguei com Deus, e virei o crucifixo para o lado da parede, indo dormir sem rezar, remoendo meus infortúnios. Mas o remorso não me deixou dormir. Cheio de arrependimento, arrumei o crucifixo e pedi perdão. Mas o tempo passou, sarei da escarlatina e pude voltar ao meu antigo quarto, porem, com a alta suspensa.
O inverno no Ibirapuera era glacial e certa noite, morrendo de frio, procurei em vão um cobertor extra. Nada. Pedi inutilmente a uma jovem enfermeira, que negou-me, categoricamente alegando que o lençol que dispunha, era mais que suficiente. Encolhi-me na cama e, desesperado, chorei convulsivamente, o que a irritou mais ainda, ameaçando-me deixar sem coberta alguma, caso não parasse com a cantilena.
Tentei dormir, mas o frio era tirano. Súbito um ruído infernal, parecendo o rugir de mil feras, e uma profusão de luzes azuis e amarelas despertaram-me totalmente. Julguei que fosse o próprio satanás, que ali tinha vindo arrastar-me para as profundezas, cobrando-me do pecado que cometera com o crucifixo. Não era. Era um helicóptero aguardando autorização para pousar no heliporto do hospital.
Momentos depois ouvi ruídos de vozes no corredor e uma multidão liderada por um homem alto, de terno e gravata, de formidável nariz e barriga considerável entravem no meu quarto. O homem do nariz olhava a prancheta nos pés de minha cama, como quem entendia aqueles garranchos médicos.
– "É o Dr.Adhemar de Barros", informou-me uma senhora da comitiva.
Pensei comigo:
-"Outro médico a essas horas?".
Vendo meus olhos vermelhos de tanto chorar, o senhor do nariz apanhou-me no colo e perguntou:
-"Por que está chorando?".
Toda a revolta, saudades de casa e de meus pais vieram à tona e ao invés de falar, chorei compulsiva e dolorosamente. Desconcertado, enxugou minhas lágrimas com as mãos, e passou-me para o colo de uma senhora de ar bondoso que estava com ele. Era sua esposa, Dona Leonor.
Contei-lhe minhas misérias, e ela olhava-me com ternura de mãe, dizendo que iria dar-me um presente. Jamais soube o que houve com a enfermeira. Não tornei a vê-la.
No dia seguinte, estava em casa, afinal! Junto com minha trouxa de roupas, havia uma cesta de flores e um cartãozinho assinado:
– "Pra você, com carinho. Adhemar e Leonor Mendes de Barros."
Dona Leonor foi uma das melhores almas que conheci em minha vida!
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