O Rei do Mate

"São Paulo amanhece trabalhando, São Paulo que não sabe adormecer, porque durante a noite paulista vai pensando, nas coisas, que de dia vai fazer…”.

Todos os dias minha mãe me acordava pra ir para a escola e lá estava o rádio na Jovem Pan tocando essa música, que cada vez que ouço meu olho se enche de lágrimas. Essa música que me acompanha até hoje não só reflete toda São Paulo, mas sim o centro.

O lugar que na minha cabeça, quando pequeno, era impossível de chegar. Ia com minha mãe na Rua 25 de março, teatro municipal, pegava o metrô e, por fim, voltava para minha casa de ônibus na Lapa. Indo pela Avenida São João, olhava pelo vidro do fundo do ônibus ele, o maravilhoso e inexplicável edifício Altino Arantes, o famoso Banespa que na adolescência ainda é um dos meus lugares preferidos de ficar andando no centro.

Certo dia, quando eu era pequeno, estava com meu pai no parque Villa Lobos, e me veio à cabeça que tinha uma casa de chá no centro, e pedi pra ele me levar lá. O Rei do Mate na Av. São João, era o primeiro de São Paulo. O local onde todos paravam para se refrescar com um mate grande ou pequeno gelado, puro, com limão ou o clássico mate com leite, onde todas os estilos aparecem.

Depois dessas lembranças do centro de pequeno e a primeira vez que fui ao Rei do Mate, continuei indo todos os finais de semana e, conforme fui crescendo, a curiosidade de explorar o maravilhoso centro aumentava. Comecei a ir sozinho e conhecer a nossa verdadeira realidade.

Pegava o ônibus na Avenida São João ou na Praça Ramos, descia no Arouche ou no começo da Avenida São João e ia andando, vendo coisas, apenas coisas, que se vêem no centro. Chegando no cruzamento da Av. Ipiranga com a Av. São João, já observava o bar Brahma com seu clássico chopp e seu clássico samba. De lá atravessava a avenida e já conseguia sentir o cheiro do chá de longe e já me preparava para falar:
– “Me vê um puro pequeno.”

E na maioria das vezes nem precisava falar mais nada. Acabei influenciando muitos a irem ao Rei do Mate.

Minha vontade de ir ao centro apenas por ir aumentava, ia à noite para comprar livros, observar o Banespa iluminado ou ao teatro, andar pela Sé, comprar comida japonesa na Liberdade com a minha irmã e comer no metrô, andar pela Quintino, Quinze de Novembro, Rua do Tesouro, Rua do Comércio, 25 de Março; sentar-me na escada do teatro com meu pai e ver a movimentação, ir ao Café Girondino, Sala São Paulo, Mercado Municipal; ir ao topo do Banespa com a minha mãe, enfim, simplesmente andar e se sentir bem.

Muitas pessoas me perguntavam:
– “O que você vai fazer no centro?”

Simplesmente não tem explicação quem sente isso ou gosta de ir ao centro deve saber do que eu estou falando.

E por incrível que pareça nenhum Rei do Mate é igual ao da Avenida São João, em frente ao ponto de ônibus. Nem o Rei do Mate algumas ruas parra baixo tem o mesmo gosto. São histórias que só quem vive ou passa por São Paulo pode contar. Lugares que como o centro não tem explicação, a única coisa a dizer é: “é o centro”.

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