Por volta das 13h de um dia ensolarado, em um longínquo mês de novembro dos anos cinquenta, um garoto recém saído das barras das saias de sua mãe caminha após ter almoçado em um dos restaurantes próximos da porteira do Brás na capital de São Paulo.<br><br>Desde as oito da manhã incorporado ao personagem de um ofice-boy ele trabalha incansável e responsavelmente. Para isso havia acordado às 5h da manhã e viajado, de trem da Central do Brasil desde São Miguel Paulista.<br><br>Absorto em pensamentos próprios de alguém de sua idade, ele caminha lentamente sem prestar muita atenção em tudo que o rodeia. Curioso procura novos caminhos que os levem até a Rua da Alfândega onde trabalha. Não há motivos para pressa, afinal o expediente da firma só recomeçará às 14h, e ainda falta muito tempo.<br><br>Depois de atravessar a porteira do Brás, ele entra em uma ruazinha sem muito movimento que o levará até os baixos do viaduto do Gasômetro. Essa rua margeia a Estrada de Ferro Santos a Jundiaí em direção a Estação da Luz. <br><br>Ao chegar em baixo do viaduto do Gasômetro, trecho completamente desfigurado e morto pela construção do viaduto, onde restam apenas pontos comerciais abandonados e fechados, o menino depara com a figura de um homem que chama a sua atenção. Ele está sentado em uma cadeira de engraxate colocada na calçada de uma velha barbearia que teima em sobreviver naquele ambiente sem nenhum movimento e explorado por prostitutas e rufiões de terceira classe. <br><br>A figura daquele homem é comum ao garoto. Trás à sua mente a imagem de seu nono, pai de sua mãe, com quem conviveu os seus primeiros doze anos de vida e que havia perdido recentemente.<br><br>Com apenas alguns fios de cabelos totalmente brancos, o corpo curvado e magro demonstrando saúde frágil e idade avançada, ele ali está à espera de alguém que possa pagar por seu trabalho. Ao vê-lo, trajando colete preto desbotado pelo uso, onde em sua algibeira transparece a corrente prateada de um Roskof Patente aquele homem retrata fielmente a figura de seu nono.<br><br>Ao ver o garoto se aproximar o senhor levanta-se da cadeira elevada e senta-se em um pequeno banco preparando-se para engraxar seus sapatos. Rapidamente os dois começam a conversar. O velho senhor não imagina a emoção que proporciona ao garoto. <br>Percebendo que o menino se interessa em saber de sua vida o velho conta-lhe que havia sido um dos primeiros engraxates autorizados pela prefeitura de São Paulo. Que trabalhava na pequena estação rodoviária do Brás (em frente a estação Agente Cícero) desde sua inauguração. <br>- "Chamar aquele estabelecimento de Rodoviária seria demais, apesar de lá saírem todos os ônibus que iam para o litoral, mas enfim o velho a considerava assim”.<br><br>Continuando justificou sua saída de lá dizendo que após um afastamento por duas semanas para tratamento de uma pneumonia, ao retornar outra pessoa havia tomado posse de sua vaga. Disse ainda que mesmo com outros engraxates na rodoviária, ele costumava engraxar mais de dez pares de sapatos por dia, mas que ali onde estava agora havia dias em que passava em branco, sem ganhar nada. <br><br>Contou também que depois da pneumonia havia se aposentado e que agora aquele serviço de engraxate era apenas uma maneira dele engordar sua mirrada aposentadoria. <br><br>A partir daquele dia o menino quase que diariamente, mesmo que não engraxasse os sapatos, passava por ali e trocava algumas palavras com seu velho amigo. Dele recebia muitos conselhos, principalmente quando alguma prostituta vinha até o velho pedir fósforo para acender um cigarro e o garoto ficava todo assanhado. Era a oportunidade para que o velho lhe contasse estórias e mais estórias envolvendo prostitutas e rufiões em encrencas Homéricas. <br><br>As estórias contadas ao menino tinham como finalidade amedrontá-lo para que não se interessasse em se envolver com nenhuma das mundanas. <br><br>A amizade dos dois se fortaleceu a ponto de dividirem segredos próprios de quem se conhecia há muito tempo e confiavam-se mutuamente. Porém sempre era o velho senhor que falava mais. Disse que seu nome era Hermenegildo, mas todos o chamavam de Gildo. Contava histórias de sua juventude, dos tempos em que nadava no rio Tiete, das dificuldades em viver no Brasil durante o período da segunda guerra, sobre a perseguição aos italianos mesmo depois de seu término. Comparava o futebol do seu tempo com os dias atuais e reclamava que sua nora não deixava que seus netos freqüentassem sua casa. <br><br>Ao se aproximar o carnaval a firma que o garoto trabalhava programou uma parada por uma semana e deu folga a seus funcionários. Os dias parados seriam compensados posteriormente Quando voltou a trabalhar o garoto encontrou a barbearia fechada. Pensou que também tivessem tirado alguns dias de folga, mas na verdade ela nunca mais reabriu.<br><br>Depois de alguns meses o garoto recebeu a incumbência de ir até o cartório da cidade de São Vicente tratar de documentação particular do presidente da firma. Sentado na sala de espera da rodoviária do Brás ele vê um engraxate muito parecido com seu amigo da barbearia, ele está engraxando os sapatos de um homem. Aproxima-se e vê que se trata realmente da mesma pessoa, mas esta muito diferente. Ao invés do colete ele veste um avental com o logotipo de uma empresa de ônibus e sua careca esta coberta com um gorro cuja pala faz propaganda de um autopeças. Já não tinha mais nada de seu nono. O menino passa bem próximo do velho que parece não reconhecê-lo. O garoto fica em duvida e já não tem tanta certeza de que seja mesmo seu velho amigo. <br><br>Nisso um motorista chama os passageiros com destino a São Vicente e avisa qual o ônibus a embarcar. O garoto embarca sem ter a certeza de que teria reencontrado o amigo e decide que na volta tiraria sua dúvida. Durante a viagem não consegue deixar de pensar no amigo e a pressa em voltar é grande. <br><br>Seu retorno acontece após as seis horas da tarde, já é noite e a cidade esta mais calma, o movimento maior é de pessoas em direção à estação da Central do Brasil. Ao descer do ônibus ansiosamente ele entra na pequena rodoviária a procura do amigo, mas apenas um dos engraxates permanece no local. O garoto se dirige até ele e apontando para a cadeira em que havia visto seu amigo pergunta por ele. O engraxate responde que Gildo havia sofrido um mal súbito um dia antes, fora levado ao pronto socorro, mas infelizmente havia falecido. <br> <br><br>E-mail: [email protected]<br>