Pomar da Natureza

Na jornada da vida, as imagens mais aprazíveis nos remetem à infância, ao descobrir pueril dos encantos da natureza avultando nossos incipientes conhecimentos.

A Vila Prudente, como a maioria dos bairros da São Paulo que nos anos 50 já se espraiava crescendo avidamente, era um pequeno núcleo comercial cercado de casinhas, que salpicavam erráticas pelos caminhos mais importantes e por vielas a perder de vista em todas as direções.

O que se via, na verdade, eram campos nas partes mais altas, adornados (se é que assim poderia ser dito, pois eram muito feios) por tufos estiolados de barba de bode, talvez o capim natural despretensioso que melhor se adaptava ao solo argiloso pobre, erodido pelo vigor incansável dos ventos constantes que sopravam de todas as direções.

Para as bandas da Mooca, o morro da Capucheta era o exemplo maior com suas encostas escorridas e quase peladas no topo. Porém, a medida que se descia em direção ao vale onde se localizava o centro da Vila, os terrenos baldios se transmutavam em matas e árvores que ataviavam o nosso pequeno universo com flores e frutos.

No fundo, no fundo mesmo, eram apenas pequenos capões de mata com seus três (quando muito quatro) metros de altura e onde perdidos se encontravam algumas árvores, mas, aos nossos olhos de pequenos observadores na faixa dos oito, dez ou doze anos, lembravam florestas. Era o nosso mundo.

Lá, construíamos nossas cabanas, que não passavam de amontoados de galhos entrelaçados e com uma tênue cobertura e barba de bode. No verão, resguardávamos do sol do meio dia, ao som agudo do canto das cigarras trombeatando arautas em exaltação ao calor, enquanto combinávamos as brincadeiras da tarde ou divertíamos com as coisas engraçadas que sempre tínhamos para contar.

Nas épocas mais frias, a cabana era o refúgio do vento e da saudosa garoa paulistana matutina ou vespertina, sempre presente.

A nossa mata era o nosso tesouro. Das goiabeiras tirávamos as mais belas forquilhas para confeccionar nossos estilingues. Os frutos não apreciávamos muito, porque quase sempre estavam bichados. Eram habitados por pequenos vermes que não nos eram apetitosos. Em compensação, havia gabirobas excelentes, amoras de diversos tipos, desde algumas vermelhas deliciosas, que provinham de uma touceira espinhosa, até outras que nasciam em árvores e que deixavam nossas caras (e roupas) roxas. Havia uma única pitangueira que anunciava com seus frutos a despedida do inverno.

Existia também um tipo de framboesa, amarela e muito doce. Era difícil de ser encontrada, pois, em geral, a ansiedade em devorá-la antecipava-se ao tempo necessário para amadurar. Inolvidável também era a Maria Pretinha, frutinha muito agradável que brotava de pequenos e delicados arbustos. E também o curioso milho de grilo, frutinha que se dispunha enfileirada em pequenas esferas arroxeadas. E a talvez mais tradicional das frutas do mato, o Cambuí que aflorava de arbustos, quase pequenas árvores. Fruta pequenina com sabor característico, que era encontrada praticamente durante o ano todo e em todos os lugares. Ao que parece, foi extinta, pois por mais que a tenha procurado recentemente (inclusive nas margens do rio Cambuí, no Paraná), não encontrei vestígios da mesma.

O nosso pomar da natureza ainda tinha maracujás pequenos, esféricos, do tamanho de bolas de pingue-pongue. Amarelos e roxos, dulcíssimos. E, complementando o cardápio, entremeado nas raízes, rastejando pela mata, abóboras.

Nosso ¨bosque¨ era pleno de trilhas, algumas ¨secretas¨ (pelo menos assim as considerávamos), por onde corríamos. Sabíamos exatamente quais obstáculos evitar, onde havia buracos, casas de marimbondos, espinheiros ou carrapichos que atazanavam quando grudados em nossas roupas. Éramos especialistas em desviar da urtiga e sabíamos onde encontrar os frutos da mamona para uso nos estilingues, ótimos projeteis insubstituíveis em nossas guerras e sucesso em nossas inesquecíveis batalhas campais. Conhecíamos as flores e as plantas venenosas.

Maravilhávamos-nos com as borboletas. No verão, verdadeiras revoadas de monarcas com suas características cores preta e alaranjado e enxames de minúsculas borboletas amarelas passavam de flor em flor em nervosa disputa com abelhas, marimbondos e beija-flores pelo precioso néctar. Já nas cercanias de uma bananeira solitária, as graciosas borboletas de uma furta-cor azul, gigantescas, que com graça rodeavam em voluptuosas danças a procura dos frutos.

Sonhávamos em encontrar a localização dos enxames de abelhas e quando topávamos, guardávamos em grande segredo para podermos nos deliciar com o mel até que a inconfidência de lábios pressurosos portasse ao conhecimento de todos.

Gostávamos de observar os ninhos dos pássaros com seus filhotes. Nos fins de tarde outonais, bandos imensos de pardais sobrevoavam ruidosos ou se recolhiam nas árvores para seu repouso a fim de reiniciarem sua arribação na manhã seguinte.

Era inesquecível o aroma do capim gordura após as copiosas chuvas de verão acompanhado pelo agradável marulhar das águas escorregando entre os seixos encosta abaixo indo contribuir com as inevitáveis enchentes que ocorriam no largo de Vila Prudente, como era conhecida a Praça Jequitahy.

Inolvidável ainda é o perfume das camélias, maravilhas e outras flores que nos galardoavam o ocaso do sol, proclamando o abrolhar das cálidas noites de verão.

Nossa bucólica Vila era alambrada por colinas lindas. Éramos felizes na inocência e desfrutávamos!

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