Av. Aratãs, Moema

Era um DKV azul, eu sabia quando ele estava na casa da (a)vó. O carro estava plantado na frente com as portas abertas, esperando ser limpo. Meu coração batia forte… Ele estaria lá.

Eu nem me olhava no espelho, não precisava. Não arrumava meu cabelo, pois não havia tempo. Apenas dava qualquer desculpa para a minha mãe, subia a Av. Aratãs em direção a casa da minha avó Marinha. Meu coração aos saltos, o rosto pegando fogo, pois toda a emoção estava estampada nele.

Saia da minha casa na Al. Nhambiquaras, viarava a Av. Aratãs em direção ao meu amor… Olhava à frente e só me virava quando eu escutava o voz dele:
– "Ei, tá indo pra sua vó?"
Nossa! Iluminação total, a voz quase não saía… Só se ouvia um grunido.

– "Hum Hum…"
Mas eu tinha de parar, afinal de contas foi ele que começou o papo.
– "Vou sim", respondi.
– "E você, lavando o carro ?", complementei.
Ai, ai… Mas que pergunta!

Ele abria aquele sorriso lindo e com aqueles olhos azuis brilhantes que combinavam tanto com o carro, ele perguntava:
– "Vai na Manja hoje? O bailinho começa as oito!!".
Era só o que eu queria ouvir…
– "Vou sim. Você também vai, né?"
– "Vou", ele respondeu.

Pronto acabou o diálogo. Tudo bem, ele vai! Ele vai! Não tinha mais nada para dizer, nem pra ouvir…Nem mesmo que eu quisesse, a alegria tomou conta do meu corpo todo..
– “Então tá, agente se encontra lá!"

Virava meu corpo tremendo de emoção, acenei um tchauzinho e continuei subindo a Aratãs, já chegando na esquina com a Al. Anapurus. AS amigas na varanda gritaram :
– "Oi Iara. Vai pra sua vó?" E as gargalhadas soaram longe…

Todo mundo sabia, afinal, que eu subia aquela rua pelo menos duas vezes por dia, só para poder ter um lance daqueles olhos azuis…

Do outro lado da rua estavam mais alguns amigos: Roberto Zé Augusto, Mimi ..
-"Oi, Iara, tudo jóia?”, perguntaram.
-"Tudo..", respondi.
-"Bailinho na Manja hoje, viu?”

Ora, como se eu não soubesse! Já estava contando os minutos, os segundos, até ensaiando mil roupas no pensamento, sonhando com os momentos que iria passar em seus braços, ao som de Ray Charles, Sergio Endrigo , Rita Pavone… Pousar minha cabeça em seu ombro esperando o primeiro beijo.

Chegando à minha avó, com a cabeça nas nuvens, não ouvia nada o que ela falava. Cumprimentava meus tios e saia correndo. A vontade era voltar de novo, descer a Aratãs mais uma vez e olhar para ele… Mas eu não podia, ia dar muito na cara, tinha que disfarçar.

Então ia nos vizinhos: Dona Lica e Sr. Lico, na Aratãs mesmo. Brincava com as crianças de pular corda… Afinal, ainda faltavam algumas horas para as oito.

Meus treze anos em Moema…

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