El dia en que me quieras

Contei, tempos atrás, que um dia de Copa do Mundo, com Brasil campeão e tudo, marcou-me com tristeza pela perda de um amor de adolescência. E que, vários anos depois, noutra Copa, encontraria a garota da minha vida. Muita gente ficou alvoroçada – conta, conta!

Bom, atendendo a pedidos…

Foi assim. Eu morava há nove anos no Bosque da Saúde. Vivia com uma moça e a relação, que nunca fora das mais felizes, deteriorava-se rapidamente. Até que um dia, era 6 de julho de 1974…

Nesta altura eu, felizmente, estava bastante decepcionado com o futebol. De torcedor fervoroso na Copa de 70, vira rolar, além de muita água debaixo da ponte, muitas cabeças de presos políticos, tortura, morte, prisão de amigos, censura e repressão. Passei a ser contra, como dizem, são os espanhóis em relação a qualquer governo. Meu lado Camargo, provindo do vale espanhol de mesmo nome, passou a falar mais alto.

Naquele momento, a exaltação ufanista da Seleção cheirava-me, com razão, a propaganda demagógica da ditadura. Brasil, ame-o ou deixe-o e outras coisas do gênero. Um terror.

Mas, onde eu estava, mesmo? Ah, sim, indiferente em relação ao jogo, ao invés de sentado frente a um televisor, estava, naquela histórica manhã, num auto-elétrico, por sinal japonês, fazendo um conserto no fusca.

Foi quando ela passou. Uma jovem beldade, caminhando com altivez e acompanhada por uma menininha, que depois soube ser sua irmã mais nova.

Eu estava à porta da oficina, e ela, apesar do narizinho erguido, enviou-me de soslaio um devastador olhar castanho – esverdeado. Uau!!! Transido, apressei-me em segui-las. Por sorte, o conserto já havia terminado.

Arranquei com o carro e ultrapassei-as, julgando ter visto, novamente, um quase sorriso naqueles grandes e belos olhos. Esperei-as mais à frente, e conversamos brevemente. Trocamos telefones e deu-me umas balas, que tinha comprado para a irmã na padaria. Não era fã de futebol, também, e por sua casa estar tomada pelos amigos dos irmãos, torcendo rumorosamente, aproveitara para dar uma volta.

O que é a coincidência! Ou será que outros fatores misteriosos escondem-se atrás do acaso?
Eu já morava ali há vários anos, e jamais a havia encontrado antes.

Poucos minutos de conversa e, embora eu ainda não soubesse, minha vida estava mudada, para sempre. Casamo-nos dois anos depois, aí vieram os filhos, o tempo passou rapidamente, e agora, quando recapitulo, vejo que estamos juntos há 32 anos. Sempre, ainda, com muito carinho e emoção, como se jamais tivéssemos amadurecido e o dia 6 de julho de 74 ficasse congelado no tempo.

Muito tempo depois perguntei-lhe o que a havia atraído em mim, naquele momento. Disse que eu parecia uma figura deslocada no panorama do velho bairro, e que tinha no olhar um brilho quase de loucura, no que não deixava de ter razão.
Eram o fascínio e a perplexidade ante o milagre espantoso de nossa vida, tão singular e ao mesmo tempo compartilhado com milhões e milhões de outras pessoas.