O anônimo rapaz que caminhava à minha frente

O centro antigo de São Paulo exerce sobre mim um fascínio incrível: sinto-me "em casa" quando circulo pelo Largo do Arouche, Praça da República, Avenida São João, Rua Sete de Abril, Barão de Itapetininga… A lembrança de meus pais, da minha infância e juventude também.

Ah, as floriculturas do Largo… Eu as admirava com seus vendedores de plantão 24h à espera de rapazes apaixonados querendo render homenagem à amada. Ou de alguém querendo presentear uma pessoa querida. As flores, sempre as flores…

Também já sonhei morar no hotel Saint Michel, aquele lugarzinho agradável escondido atrás de antigas e frondosas árvores, embutido no meio de prédios bem mais altos do que ele, mas que não lhe tiram o charme peculiar.

Enfim, amo essa cidade: a tresloucada, desvairada capital que intrigou Caetano a ponto de lhe render glórias com sua música "Sampa", quase um hino à Capital… Mas antes vieram outros, especialmente Adoniran, com sua simplicidade e amor a essa terra. Assim, quando chego a São Paulo sinto-me bem; um certo orgulho me faz brilharem os olhos ao falar sobre esse lugar tão amado, tão promissor, mas tão exigente também.

E quando recebo alguém de fora, sinto-me feliz em poder levar a conhecer e em compartilhar esse meu sentimento. Foi o que fiz ao levar um grupo de amigos do Rio Grande do Sul. Senti que se agradaram dos lugares que visitaram; mais feliz fiquei ainda quando fomos almoçar n'O Gato que Ri (e quem não conhece, pasme, o gato que lá vivia parecia rir mesmo), antigo restaurante italiano localizado no Largo do Arouche.

Como o almoço se prolongava e eu teria que descer a serra da Anchieta sozinha, preferi me despedir deles dentro do próprio restaurante e voltar ao hotel para apanhar as malas. Mas eis que “no meio do caminho” algo me chamou a atenção: ao passar pela Praça Júlio Mesquita, ponto de encontro das mais diversas "tribos" e frequentada por pessoas usuárias de todo tipo de "química", um garoto aparentando treze anos dormia na calçada. Talvez sob o efeito de uma dessas drogas, porém droga maior deveria ser a fome que o fazia dormir. Seguia na minha frente um rapaz bem apessoado, que discretamente se abaixou e colocou ao lado do tal garoto uma vasilha tampada, com uma refeição e um garfo de cabo laranja.

Não me contive: chamei o jovem que parecia querer ficar anônimo em seu ato, perguntei-lhe sobre o que fizera e o cumprimentei pela atitude. Ele sorriu, seguiu seu caminho e eu fui para o hotel finalizar a minha estadia em Sampa.

Entrei no carro e segui em direção a Santos. O coração, esse ficou naquela praça que ainda vê passar pessoas nobres e de alma bondosa como o anônimo rapaz que caminhava na minha frente…

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