Enquanto explodia a Revolução, em meu peito adolescente de 11 anos, explodia a tristes do lugar que morava. A oportunidade chegou quando recebi um panfleto de "lotes a venda" na Brasilândia, um loteamento denominado Vila João Batista.
Em novembro de 1964, nos mudamos e junto com a mudança, levamos nossa esperança de vida nova para um lugar novo. Não havia nada: asfalto, água, luz, absolutamente nada! Contudo minha alegria superava toda e qualquer dificuldade, pois não pagaríamos mais aluguel; o "terreno" era nosso, pagávamos prestações, mas era nosso. Comprei-o com meu ganho na Casa do Pequeno Trabalhador, como guarda de veículos.
Além da compra do lote, ainda pudemos construir um barracão grande com banheiro. Nossa mansão.
Não tínhamos vizinhos. Recordo-me que no fundo do terreno havia uma elevação bem alta, findava na Estada da Pedreira que vez por outra ao dinamitar as rochas, enviava pedregulhos para todos os lados.
A frente do lote, havia uma linda paisagem descendo e subindo, e ao longe um novo morro com apenas uma fila de casinhas ao longo da Estrada da Vila Terezinha.
A água era um capítulo à parte. Tínhamos que busca-la nas minas que ficavam cerca de dois a três km de onde morávamos. Como luz, utilizávamos o velho lampião.
Recordo-me da bela paisagem iniciada no final de maio, seguindo até junho. Ambos os morros, Vila João Batista e Vila Terezinha, cobriam-se das flores do capim gordura, de cor púrpura; anunciando a chegada do inverno e, a medida que passava o mês, tornava-se mais rubra até ficar bem escura e murchar, secando o capim por completo.
Depois, predominava a cor palha. Esperávamos os pingos da primeira chuva, indicando que logo chegaria à primavera e, junto com ela, os primeiros brotos do mesmo capim. Logo após uma chuva mais forte, ambos os morros cobriam-se de um verde exuberante que indicava a chegada da primavera.
Já na mata chamada "do Governo" as marcas eram outras: o ipê amarelo brilhava no mês de julho e agosto, como pontos dourados no verde profundo da mata.
O tempo foi passando e não percebíamos que, aos poucos, as ruas iam se enchendo como a nossa; as novas casinhas e os novos sonhos iam cobrindo os morros, removendo o verde, deixando sobressair o cinza dos telhados e alguns vermelhos, que iam aumentando cada dia mais.
Logo os caminhos tornaram-se ruas, que foram cobertas pela massa negra e calçadas vivas! Chegou água na torneira e a luz não somente dentro de casa, mas nas ruas.
A paisagem agora era outra à noite: o pisca-pisca dos vaga-lumes tornou-se pontos amarelos minúsculos; no final de maio, já não se via mais a flor do capim gordura e alguns ipês deram lugar às novas casas que avançam até hoje como que a dizer para a Mata do Governo:
-“Queremos passar… queremos seguir…”.
Até quando seguirão?
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