As sextas-feiras santas costumam ser dias mais ou menos parecidos, chuvosos e invariavelmente muito tristes. Aquela foi também assim. Não chovia, mas havia no ar algo que nos angustiava e, no peito, apertava o coração. Foi num ano qualquer, no início da década de 50 e, como habitualmente acontecia, seriam realizadas aqui em Vila Maria as cerimônias religiosas evocativas da Paixão de Cristo, Páscoa.<br><br>Uma dessas cerimônias era realizada ao ar livre, na sexta-feira à noitinha, no terraço que havia em cima de uma gruta localizada adiante e abaixo da igreja matriz (consagrada a Nossa Senhora da Candelária), que ficava encravada numa escavação do morro frente à Avenida Guilherme Cotching.<br><br>Naquela tarde, ao me dirigir à igreja, parei no caminho. Não conseguia prosseguir. Detive-me no alto do morro, bem atrás da igreja. Meditava sobre Ele, aquele ser complexo e ao mesmo tempo tão transparente; aquele Cristo, amargo com os delatores, que não poupava os hipócritas, mas que era bondoso com os humildes, piedoso com os sofredores, compreensivo com os pecadores e marginalizados e que, inocente, deixara-se sacrificar, crucificado.<br><br>Anoitecia. Eu podia observar lá embaixo a matriz nova. Ainda em construção. Havia apenas alguns metros de paredes erguidas, o que não impedia que eu, lá de cima, tivesse uma boa visão da gruta e da cerimônia que sobre ela acontecia.<br><br>A praça e a avenida adiante da gruta estavam às escuras, mas o espaço sobre a gruta estava bem iluminado. Erguia-se ali uma Santa Cruz com a imagem de Cristo crucificado e, a cada lado desta, duas outras cruzes vazias, que seriam as dos ladrões que junto a Ele foram também crucificados.<br><br>As pessoas ao redor do Lenho Santo, algumas filhas de Maria e congregados marianos, iriam encenar o resgate do corpo de Jesus Cristo que seria seguido da Procissão do Enterro ou de Nosso Senhor Morto, muito cara aos vilamarienses de então.<br><br>Representariam José de Arimatéia, e as santas mulheres que acompanharam Jesus em seu martírio; a Virgem Maria, Marta, Maria mulher de Cleófas, Salomé, Maria Madalena e Verônica, esta última interpretada por uma moça de nome Ivon e Poli, organista da igreja, que ensaiava o coral e nele também cantava. Às missas, emprestou seu talento de virtuose em belíssimas interpretações ao piano ou órgão e com sua voz de mezzo-soprano deu-lhes pompa e majestade nos momentos mais sublimes.<br><br>Tendo o pároco terminado sua alocução, na qual lembrara os trágicos acontecimentos da Sexta-Feira da Paixão, dois homens subiram as escadas postadas ao lado da Santa Cruz para encenar o resgate. O descimento se fez por meio de um lençol branco passado por baixo dos braços abertos da imagem e seguro nas extremidades pelos dois homens.<br><br>O silêncio era total entre a multidão contrita. Sobre a gruta, enquanto se descia a imagem, fluía pelo ar a bela voz de Ivone Poli, entoando a capela, a canção de Verônica, exibindo para o público o lenço com o rosto de Cristo estampado.<br><br>A praça, agora, começava também a iluminar-se pelas velas que os fiéis, uma a uma, iam acendendo. O andor com a imagem do Senhor Morto, carregado pelos congregados marianos, dava início à Procissão do Enterro.<br><br>Embalada pelas ladainhas cantadas pelas filhas de Maria, congregados marianos, apostolado da oração e acompanhadas pelo povo, a procissão começava lentamente a deslocar-se.<br><br>Visto do morro, o espetáculo oferecido pelas velas incandescentes, fluindo como um rio de luz pela Rua Mére Amédea acima, era deslumbrante e eu, extasiado, a tudo acompanhava do meu cantinho privilegiado.<br><br>Tudo era tão belo para mim, pouco mais que um menino, que inadvertidamente me rejubilava como se já fosse aquele o momento sublime da Ressurreição.<br><br>Perdoai-me Senhor pelo deslize, por não Vos ter pranteado nessa hora, por, antecipando os acontecimentos, ter-me deixado ficar lá no alto do morro à Vossa espera, para quando por mim passásseis em Ascensão gloriosa, eu Vos pudesse tocar o manto e merecer a benção do Vosso olhar piedoso.<br><br>E-mail: [email protected]