Lá vou eu novamente cutucar a saudades com vara curta! Então, que seja, fecho os olhos e vejo um casarão enorme, pé direito com mais de 3 metros +/-, situado na rua Augusta, 291, olho para dentro dele e vejo, depois de uma escada de mármore, uma porta de madeira maciça, ao lado, uma janela grande com a veneziana fechada.
Abro a porta e entro. Estou em um pequeno corredor de entrada, do lado esquerdo, uma porta leva ao quarto de frente, o pequeno corredor dobra-se para a direita e continua levando seus passantes à sala de jantar, mas, antes, passando pelas portas de mais 2 quartos, um deles que já comentamos quando falamos da entrada e o outro, imediatamente contíguo, depois da sala de jantar, ainda na continuidade do corredor, fica um pequeno quartinho, depois o banheiro e, finalmente a cozinha.
Nessa cozinha, vejo uma porta de madeira que aberta nos apresenta um enorme quintal, que só termina nos muros da Gráfica Siqueira, devidamente instalada na rua Frei Caneca.
Bem, descrito o imóvel, forço mais minha visão e vejo, então, três meninos, reconheço-os de imediato, são eles o Miguelzinho com +/- 8 anos de idade, seu irmão o Carlinhos com 6 anos e, seu primo Robertinho com de igual idade que seu irmão.
Estão sozinhos já que a Da. Tereza mãe do Miguel teve que sair e a Da. Neide, mãe do Roberto, indisposta, está repousando nos seus aposentos.
Crianças aparentemente sozinhas têm a tendência de querer "aprontar" e pressinto isso nas expressões faciais dos três moleques, principalmente na cara do maior.
Vamos nos imiscuir e ouvir o que conversam:
Miguel: Gentinha vamos brincar de pic-nic?
Carlinhos: Vamos.
Robertinho: Eu também vou.
Interesso-me pelo assunto e continuo na oitiva.
Miguel: Então Carlinhos, você e o Robertinho ficam encarregados de conseguirem as comidas e eu as bebidas, o local do pic-nic será atrás da moita de hortências lá no fundo do quintal.
Robertinho: O que pode servir de comida?
Miguel: Tem muita coisa, pão torrado, laranja, vocês resolvem.
Carlinhos: Então vamos.
Agora eles se separam para cumprir suas tarefas. Penso um pouco e resolvo acompanhar o Miguelzinho. Ele sobe as escadas, vai em direção ao primeiro quarto do corredor, aquele em que a janela fica em frente da escada de entrada.
Abre a porta, entra, passa por cima de uma cama de casal alcança um grande guarda-roupas, abre uma folha de suas portas, enfia a mão e quando a retira, tem entre seus dedos uma garrafa. Imediatamente a esconde dentro do calção e sob a camisa, sai sorrateiramente e, quase correndo, se dirige para o fundo do quintal.
Lá já estão os dois comparsas.
O que vocês trouxeram? Pergunta ele.
Eles sorridentes e orgulhos mostram o produto das suas pilhagens, 3 laranjas, 3 cebolas grandes e uma boa quantidade de pão torrado (em forno de carvão).
Miguel: Ótimo! Eu trouxe isto para bebermos e, orgulhosamente retira de dentro do calção uma garrafa de "Biotônico Fontoura" (tamanha família, recentemente lançada pelo laboratório do mesmo nome).
É necessário que eu faça um pequeno parágrafo para explicar que o líquido apresentado para bebida no pic-nic de última hora, era um estimulante de apetite infanto juvenil que ainda hoje existe nas boas farmácias e drogarias.
Feita a explicação, continuemos a narrativa, sem mais delongas, sentam-se os três e começam a comilança. Pão torrado com cebola crua e goles de biotônico, os dois menores moderam um pouco na bebida, pois engasgaram com ela no primeiro gole, mas o Miguelzinho, deita e rola, dando grandes goladas de bebida.
Ao termino do pic-nic, ocorrido junto com o esgotamento do "liquido inebriante", percebo que o Miguel está tontinho.
Agora a coisa deve esquentar de vez, Da. Tereza voltou, vê o filho naquele estado, corre até a cristaleira da sala para ver se falta alguma garrafa de bebida./ Não dando pela falta de nenhuma garrafa começa a inquisição que parece está sendo infrutífera.
Sem mais argumentos ou quesitos, solta um aviso em voz mais autoritária: – Conta o que você bebeu ou então leva uma surra daquelas.
Miguelzinho percebe que nada mais há para ficar calado e diz, com a voz pastosa e a língua enrolada: – Foi só um gólico de Biotônico Fontoura, e mostra a garrafa vazia.
Da. Tereza, não precisa ouvir mais nada, levanta a mão e começa a surra.
Mais uma das memoráveis surras!
Até hoje, quando exagero na bebida me lembro daquela cena e da surra. Então, sei que esta na hora de parar.
Nem toda a lembrança é alegre, muitas vezes ela é doída.