Juão Sebastião Bar

Juão Sebastião Bar, na época de propriedade do jornalista Paulo Cotrim, era o templo da Bossa Nova em São Paulo. Por ali desfilaram grandes astros paulista da música brasileira, e os cariocas importados do "Beco das Garrafas", reduto do movimento no Rio de Janeiro.

Na Major Sertório, além do "Juão", tinha o "Ela Cravo e Canela ", por onde passaram Claudete Soares, Theo de Barros, Vera Brasil, Hermeto Pascoal, Taiguara, e muitos outros. A casa, de propriedade de certo Petri, dava muita chance aos novatos.

Para completar, a rua abrigava o La Licorne, conhecido por suas lindas e charmosas mulheres, de vida mais ou menos difícil, capitaneadas pela famosa Laura.

Por um tempo, a Galeria Metrópolis, também teve "O Jogral" do Luiz Carlos Paraná e um barzinho muito interessante onde só se ouvia Bossa Nova, chamado "Aquela Rosa Amarela " que, por incrível que pareça, era de propriedade do locutor esportivo Silvio Luiz que, mais tarde, casou-se com a extraordinária cantora Márcia.

Mas, voltando ao "Juão", aquele lugar espremidinho foi ponto dos grandes da Bossa. Johnny Alf, Cesar Camargo Mariano, Marisa, Elis Regina, Zimbo e os "bicos", como eram chamados pelos músicos profissionais, aqueles que na realidade queriam mesmo era aparecer.

Um destes personagens, conhecida por Teca, nos primeiros acordes subia em uma plataforma que existia em cima de um pequeno palco, e se punha a dançar como se fosse uma coreografia do Lennie Dale ou da Bety Faria.

O segundo andar, com visão um pouco prejudicada para o palco, era dedicado aos que, além de ouvir música, queriam curtir um bate-papo.

E foi ali, naquele templo da Bossa Nova paulista, que participei da produção do mais inusitado espetáculo de minha vida. Um "happening". O "happening” era uma manifestação artística tendo como base música aleatória e poesia concreta, que reunia artistas de diversos segmentos em uma performance criada na hora, sem roteiros nem scripts. Já tinha assistido algo parecido, mas na rua, nem quando morei em New York.

Propus ao amigo Blota Neto, novo dono do Juão, que queria dar um "up" na casa, fazer algo diferente e ele topou. Falei com meu irmão, o maestro Sandino Hohagen, que gostou da ideia e junto com seus colegas, também maestros, Rogério Duprat, Damiano Cozzela e o poeta Decio Pignatari, comandaram a maior loucura que lá se viu.

Vários alunos de música do Rogerio e do Cozzela foram convidados e se integraram ao quarteto. Decio lia suas poesias concretas, uma vitrola tocava hinos patrióticos, Sandino regia a nona sinfonia de Beethoven apenas lendo a partitura, sem música…

O público começou a se entusiasmar e a interagir. De repente, vai ao palco um rapaz fazendo um discurso inflamado em alemão; Rogerio Duprat com um penico na mão fazia coleta de doações e depois jogava as moedas para o público.

A imprensa, que dava ampla cobertura ao evento, também aderiu e no dia seguinte, 10/05/66, o Jornal da Tarde, a Folha de São Paulo, Última Hora e Notícias Populares publicavam com destaque aquela "explosão criativa".

Na parede de fundo do palco, um imenso outdoor da propaganda do famoso xarope São João, com a célebre frase do sujeito ameaçado de mordaça: "Largue-me. Deixe-me gritar".

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