Carnaval sempre me lembra minha mãe. Casada com meu pai, homem criado em família interiorana, onde tal data servia apenas para confirmar os votos de uma religiosidade castradora, o Carnaval não fazia parte de sua vida. Os encantos da folia, da fantasia e das marchinhas curtas e maliciosas apenas encantavam a parceira. Mas o amor, ah, o amor, na escolha dos nossos pares nos faz cego diante das trocas.
Como já disse, embora meu pai fosse um companheiro solidário, não compartilhava com a jovem esposa o brilho que tal data pedia e, assim, fomos criados ao som do aparelho de TV ligado durante estes dias e minha mãe, através dos bailes eufóricos exibidos repetidamente nos parcos canais da época, saciava, quero crer, o desejo contido.
Meu pai não chegava à rigidez do velho Gattai, progenitor da escritora Zélia Gattai, onde criativamente traduzia a palavra carnaval como "carne vale", ou seja, que nesses dias valia tudo "carnalmente" falando. Mas meu pai apenas não via necessidade de, através de inocente e sadia alegria, participar de reuniões com barulhentos foliões.
Dona Neide sim, até próximo ao seu desencarne, procurava acompanhar pela TV ou jornal as notas dadas pelos jurados às escolas de samba, e criticando, quando ao seu ver não houvesse justiça ao posto. Minha mãe, gerada por Chico Turco e Dona Belarmina, anfitriões da folia saudável santamarense, encontrou nos filhos a forma gostosa de extravasar suas origens.
Lembro em especial de um ano, quando muito jovem, minha mãe resolveu, como sempre, colocar sua criatividade em pauta, nos filhos pequenos. A mim, bela havaiana, ela escolheu e confeccionou durante a semana anterior a data. Uma saia farta de fiapos de ráfias coloridas e gracioso colar florido.
Ao meu irmão, dois anos mais novo, restou um… Digamos original acetinado galo. A tal fantasia consistia de uma capa de cetim branca em que no capuz reluzente despontava um bico amarelo gema, rodeado de partes complementares em feltro vermelho. Os olhos de tal galináceo eram feitos de botões coloridos que lhe davam uma cômica expressão. Mas, para nós e sua criadora, uma bela e divertida obra de arte.
Confetes e serpentinas guardados em singelos saquinhos de filó pendiam em nossos punhos. Mas, independente da originalidade da fantasia, com certeza o Galo e a Havaiana se esbaldaram na calçada em frente à loja de minha avó na Rua Capitão Thiago Luz, onde hoje instalado está o predio da subprefeitura de Santo Amaro, e no jardim da Praça Floriano Peixoto. Outros carnavais vieram, mas esse, sem dúvida, valeu a memória.
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