Morreu dia 4 de outubro de 2010, aos 89 anos, o último dos pioneiros do samba paulista. Alberto Alves da Silva, o seu Nenê, deixará saudades naqueles que gostavam de ouvir casos interessantes de uma São Paulo antiga, histórias que ninguém mais poderá contar.
Corria o ano de 1967 e o Brigadeiro José Vicente Faria Lima, carioca nascido em Vila Isabel, berço de Noel Rosa, permanecia alimentando o sonho de organizar em São Paulo um carnaval nos moldes daquele feito no Rio de Janeiro, com arquibancada na avenida e muita organização para atrair turistas, mais empregos e negócios.
Ao mesmo tempo em que sonhava, o então prefeito da cidade temia que algo pudesse não dar certo pelo fato dos sambistas paulistanos daquela época serem muito ciumentos com suas escolas, não se bicando uns com os outros.
Naquele tempo, o radialista Rubens Moraes Sarmento era líder de audiência com um programa que ia ao ar meio-dia, chamado Almoço a Brasileira. Eram duas horas diárias de samba pelo rádio, em uma emissora cujos estúdios ficavam na Rua Paula Souza, região do Mercado onde muitos sambistas de São Paulo trabalhavam. De vez em quando, algum deles visitava Sarmento com a mesma ladainha de que as autoridades não davam apoio à organização de um desfile de carnaval.
Certo dia toca o telefone e alguém chama por Moraes Sarmento, era da prefeitura. Surpreso, recebe a informação que Faria Lima estava convocando a ele e aos sambistas para uma reunião. O prefeito queria saber quantas escolas de samba existiam em São Paulo e quem respondia por elas para, só assim, poder pensar como organizaria um desfile.
No encontro compareceram, além de Sarmento, nomes históricos do samba paulista como o seu Nenê do Pandeiro, dono de uma escola de samba da Vila Matilde e ainda Inocêncio Tobias, da Camisa Verde e Branco da Barra Funda; além de um crioulo com apelido esquisito: Pé Rachado, da Vai-Vai do Bexiga.
No mesmo encontro havia a participação de uma mulher, conhecida no samba como Madrinha Eunice, dona da então campeoníssima Lavapés. De repente, em meio à conversa, o prefeito interrompe a reunião e chama Sarmento para uma sala ao lado. Ali ele diz que a prefeitura só promoveria o desfile se o radialista assumisse a presidência de uma entidade representativa dos sambistas que tomasse para si a responsabilidade de organizar as escolas e cadastrar os componentes para o desfile. Moraes Sarmento percebeu que se não aceitasse o convite, provavelmente a ideia não vingaria; e para que tudo desse certo, Rubens Moraes Sarmento assumiu o cargo e hoje consta na história como primeiro presidente da UESP – União das Escolas de Samba de São Paulo.
Finalmente, o primeiro desfile organizado pela prefeitura de São Paulo aconteceria no carnaval de 1968, em um lugar previamente escolhido, o Vale do Anhangabaú. No dia marcado, o prefeito compareceu às arquibancadas com ares de desconfiança, achando que nem todos desfilariam fantasiados e sem a presença de todos os carros alegóricos prometidos. Faria Lima assistiu ao desfile do começo ao fim e, ao sair, por volta das oito horas da manhã, declarou estar satisfeito, porque tudo havia acontecido conforme o previsto: o Carnaval de São Paulo se tornara realidade.
A escola vencedora naquele ano histórico foi a Nenê de Vila Matilde com o enredo Vendaval Maravilhoso de Castro Alves. Alberto Alves da Silva, presidente da escola campeã de 1968, lembrou desses acontecimentos trinta anos depois, no programa São Paulo de Todos os Tempos, pela Rádio Eldorado, oportunidade em que também entrevistamos Moraes Sarmento.
Seu Nenê, durante boa parte de sua vida, foi metalúrgico, se apresentando como artista somente nos finais de semana com seu pandeiro. Passou a se dedicar inteiramente ao samba somente após sua aposentadoria, mas em sua longínqua vida, a escola fundada por ele em 1949 obteve vários títulos. O mais significativo aconteceu em 1985 quando, depois de vencer em São Paulo, a Nenê
de Vila Matilde participou do desfile das campeãs no Rio de Janeiro.
Ultimamente vinha reclamando do excesso de profissionalismo do carnaval, algo que ele ajudou a desenvolver. Reclamava que o samba estava dando lugar ao luxo das fantasias e à plástica das modelos que só procuram as escolas para aparecer na televisão.
Diante dos fatos, deixou o comando para seu filho e tornou-se presidente de honra da Nenê. Foi condecorado Grão Mestre e Embaixador Mor do Samba de São Paulo, pela Liga das Escolas de Samba que hoje é a entidade representativa das escolas do Grupo Especial e de Acesso.
Daquela reunião histórica de 1967 que culminou na inclusão do carnaval entre os festejos oficiais da cidade de São Paulo, não resta mais ninguém, apenas as lembranças das histórias contadas pelo seu Nenê da Vila Matilde.
E-mail: [email protected]