O professor Benedito e Castro Alves

O professor Benedito, do Liceu Coração de Jesus, foi um mestre de história do Brasil e geografia inesquecível. Bem humorado, competente, suas aulas prendiam a atenção até dos mais desinteressados.

Era leitor dos grandes poetas e não perdia a oportunidade de citá-los em suas eloquentes explanações. Não importava o tema – a Independência, a Inconfidência, a Cabanagem ou a Revolta dos Mascates; havia sempre espaço para um belo verso.

Lembro-me como se fosse hoje de sua magnífica aula sobre a abolição da escravatura. Introduziu várias estrofes de O Navio Negreiro e de As Vozes da África, de Castro Alves e terminou, apoteoticamente, com

"Andrada, arranca esse pendão dos ares
Colombo, fecha a porta de teus mares"

Foi um delírio.

Na prova final, um dos pontos sorteados – lembram-se disso? – foi exatamente sobre a escravidão. Eu não me sentia bem preparado para o exame e não decorara as datas importantes, mas sabia de cor muitos trechos de O Navio Negreiro. Depois de discorrer sobre a vergonha que representava a escravidão no Brasil, encaixei alguns versos na redação, como estes

"Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus
Se é mentira… se é verdade
Tanto horror perante os céus."

Saí da sala imaginando que enganara suficientemente bem para ser aprovado. Quando as notas foram reveladas, não acreditei: fora premiado com a nota máxima: dez. Dez inesquecível, tanto quanto o querido e saudoso professor Benedito, que gostava de pulôveres coloridos e cultivava um safado bigodinho.

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