Vila Sônia tem luar, sim senhor

Quando eu e meus pais mudamos em 1966 do Brás para a Vila Sônia, não acreditávamos, pois era como interior: longe de tudo. Para ir ao centro de São Paulo era uma viagem, o céu era limpo, cheio de estrelas e havia um luar diferente, não entendia o porquê do luar, mas foi lá a minha infância e adolescência.

Tínhamos uma lanchonete na Avenida Prof. Francisco Morato chamada Maxique. Fomos nos integrando com os vizinhos e em pouco tempo já tínhamos muitas amizades, e o principal: passamos a confiar que estávamos num ótimo lugar.

Do outro lado da avenida, o Cinema Paladium do Sr. Geraldo, onde aprendi a amar o cinema e os seus filmes; conhecia todos os funcionários e, por conta disso, comecei a frequentar inicialmente na matinê de domingo, depois nas noites. Comparei-o muitas vezes com o filme: Cinema Paradiso, pois a emoção vivida por mim foi muito parecida com a de Totó, algo marcante em minha vida.

Lembro que nos intervalos dos filmes (haviam dois filmes), meninos, meninas e adolescentes andavam por todo o cinema como se fosse uma praça, na busca de conhecer um par. Quantos namoricos, quantas amizades… Como explicar essa onda? Creio que tenha sido para muitas pessoas o local do primeiro beijo, do primeiro namoro, tudo isso "regado" com o filme "Dio come ti amo", que era exibido pelo menos seis vezes todos os anos.

No quarteirão ao lado, estavam o Instituto Dona Ana Rosa e alguns outros estabelecimentos, e um deles era a padaria Luar da Vila Sônia. Éramos fregueses, comprávamos os deliciosos pães, pois fazíamos lanches para revender. Ainda tenho a lembrança do doce sabor daqueles "sonhos de creme", "bombas de chocolates", o saboroso pernil assado no fim de ano nos fornos à lenha da padaria… São inúmeras as citações.

Em 1970, fiquei sabendo da estória do nome Luar da Vila Sônia, que havia sido uma música feita por um morador do bairro que estava e sentia falta do luar da Vila Sônia. E talvez tenha sido esse luar o encanto de quem morava nesse fim de mundo, hoje, nem tanto assim.

Guardo com muito carinho esse tempo, dos nossos amigos e dos frequentadores da nossa lanchonete, onde ouvi muitas estórias, muitas piadas, risos e choros, fazendo parte importante da minha formação.

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