Todo mundo diz que "problemas existem em todas as famílias" e eu concordo, pois os dedos da mão não são iguais. Convivemos com pessoas e estas, mesmo tendo o mesmo sangue e aprendendo dos pais as mesmas regras de convivência, possuem personalidades, gostos e atitudes diferentes. Contudo, uma coisa é certa: tudo o que é semeado no seio familiar, influência por toda vida. Veja só a minha história!
Nasci num lar onde minha mãe era 30 anos mais jovem que meu pai. Viúvo, com cinco filhos e bonitão, papai se apaixonou pela jovenzinha que, todos os finais de semana, passava por ele rumo às refrescantes ondas da praia do Flamengo no Rio de Janeiro, onde ele trabalhava.
Sem graça, não tinha coragem de se aproximar e só chegava mais perto através da lente de seu indiscreto binóculo. Certo dia, a grande oportunidade: uma terrível câimbra impedia minha mãe de nadar e nas águas começaram sua luta para não se afogar.
Papai, ao observar a cena, largou imediatamente seu binóculo e, atravessando alucinado a avenida, arrancou os sapatos, pulou na água e, como um herói – vestindo ainda camisa e calça de linho e gravata – foi salvar sua amada.
Três meses depois, em dezembro de 1954, eles (Daniel e Luzia) se casaram e vieram morar em São Paulo. Imaginem só: uma jovem agora com 15 anos, meu pai com 45 e os filhos dele, meus irmãos, com 19, 17, 16, 15 e 13 anos. Se não estavam brincando, brigavam.
Foi preciso muita paciência ao papai e compreensão da mamãe para que a organização dos serviços domésticos e a diversão não se transformassem em bagunça.
Finalmente, tudo deu certo. Alguns anos depois eu nasci, bem como mais quatro irmãos. Aprendi a conviver e amar todos, respeitando suas individualidades, através dos ensinamentos do meu pai.
Ele nos passou (e minha mãe assinou embaixo) a lição de integridade, respeito, amor e trabalho, nos unindo como uma galinha faz com seus pintinhos; e quando com 90 anos nos deixou em 1997, o registro de seus ensinamentos ficaram tão fortes, como a saudade que sentimos daquele grande Paulistano que sempre dizia:
– São Paulo é uma terra abençoada e, com nosso empenho, tudo vai dar certo!
Ele estava certo. A plantinha que ele semeou transformou-se em árvore e os frutos das boas ações agora alimentam meus filhos, que semearão para as demais gerações. E espero que isto ocorra ainda sob os atentos e zelosos olhares, da minha ainda jovem mãe.
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