Em 1930 meu pai tinha 26 anos e como eleitor, participou daquela eleição que, segundo ele, foi mais um ato de terrorismo do que propriamente uma eleição.
Muita gente votou duas vezes e, segundo ele e mais os vizinhos do Itaim dos anos 1950, diziam que naquela eleição até os mortos votaram.
Segundo meu pai, ele foi tirado da cama para votar novamente, só não perguntei em quem ele foi obrigado a votar. Eu tinha 11 anos e sem percepção para tal pergunta. Sendo assim, ele votou pela manhã espontaneamente e a noite na marra.
Então, fico hoje pensando que foi por isso que o candidato eleito Julio Prestes de Albuquerque, para substituir Washington Luiz, não tomou posse, sendo substituído por uma junta governativa até a chegada de Getúlio Vargas, segundo colocado naquela eleição, que, chegando ao palácio do Catete, ficou por 15 anos, sem sair um dia de lá.
Depois dessa triste efeméride de 1930, não mais tivemos corrupção eleitoral, mesmo porque não tivemos mais eleição para presidente, e também, nem constituição tínhamos, até que em 1932 houve uma revolta do estado de São Paulo, de onde era o eleito que não tomou posse.
Julio Prestes de Albuquerque era da cidade de Itapetininga, interior do estado de São Paulo, e foi o único paulista eleito até hoje no Brasil.
Depois que acabou a segunda guerra mundial, as ditaduras foram caindo e a democracia voltou. No Brasil, como só tínhamos o presidente e vice, era uma coisa inimaginável naqueles 15 anos corridos, quem substituiu Getúlio Vargas, que teve que se contentar em voltar para São Borja (RS) foi o presidente do supremo, José Linhares. E não é que logo de cara foi instituída a corrupção oficial?
Sim, o presidente interino mal sentou na cadeira ainda um pouco quente, começou a despachar, nomeando toda sua família. Ficou sendo o maior nepote do Brasil de todos os tempos. Chamado a explicar o porquê de tal atitude, ele foi claro:
– Prefiro ficar mal com a nação, do que com minha família.
Pronto, estava aberto o canal para a corrupção coletiva, porque, segundo línguas, anteriormente a corrupção era isolada aos puxa-sacos, artistas de rádio e teatro, amantes, e pelegos da ditadura Vargas.
Na eleição de 1946 para se eleger o verdadeiro presidente da República, havia um partido político recém-criado, a UDN (União Democrática Nacional) que concorria com outro partido, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), também criado na época, e que pertencia a Getúlio Vargas, "o pai dos pobres", mas chamado pela turma da UDN de a "mãe dos ricos". Tinha também o PSD, partido social democrático.
A UDN era, segundo seus partidários, o partido probo, e de correção para ajudar a salvar o país.
Eurico Gaspar Dutra, que tinha sido ministro da guerra de Getúlio, e que ajudou a botá-lo para fora do catete, era o candidato e estava na iminência de perder para o Brigadeiro Eduardo Gomes da UDN, que tinha a preferência das mulheres por ser considerado bonito. A eleição estava bem próxima; era já a semana da eleição e recorreram a Getúlio que, a poucos dias da eleição, reverteu os possíveis votos contrários, resolveu o problema e o Brigadeiro foi derrotado.
Daí para frente, ocorreram vários lances de corrupção na política brasileira. Compra de votos era a principal acusação contra candidatos.
Mas se pagar antes da eleição seria um perigo, pois como o voto era secreto, como saber se o eleitor ia mesmo votar nele? Então, ficava estabelecido que o eleitor desse o número do título de eleitor, daí saberiam a seção onde o eleitor iria votar. Aí o candidato pegava a lista de votação, e conseguia saber se naquela urna tinha pelo menos um voto. Aí o pagamento era completado. Pois uma nota de cinquenta ou cem cruzeiros era cortada pela metade e o complemento da nota era dado depois da comprovação do voto.
Tinha gente que preferia sapato ou botina ao invés de dinheiro. Então, o eleitor recebia um pé de sapato ou da botina e, para ele não ficar manquitola, a outra parte era entregue depois da eleição, caso o voto fosse comprovado.
Muitas outras artimanhas eram feitas numa eleição. Naqueles anos, pouca gente tinha carro, então, a condução para pelo menos ir ao local de votação era fornecida pelo candidato e somente a volta ficava por conta do eleitor.
Pelo menos ele ia até o local de votação. E aí não era preciso dar o número do título de eleitor. Eu, pelo menos, nunca dei e sempre usufrui deste privilégio de andar de carro, porque, naquela época, pobre só andava de carro nessas ocasiões. O dia da eleição era considerado o dia da carona.
Quem usava muito desse expediente de pagar chofer de praça para levar eleitor ao local de votação era o candidato a deputado estadual, Leôncio Ferras Junior, candidato e morador do bairro do Itaim Bibi; além do candidato, era todo sorriso dona Marta, esposa do candidato, que ia encaminhando os eleitores nos automóveis.
O comitê do Leôncio era na Rua Joaquim Floriano, perto da farmácia do seu Brandão. E lá estacionavam muitos carros de praça, hoje chamados de táxi. Era só ir até lá e pegar um deles que ia para a região de Santo Amaro. Eram carros grandes, se não era um Chevrolet, era um Ford, que cabiam, fora o motorista, cinco pessoas. Todos os eleitores que iam por uma região eram deixados na porta do local de votação.
Eu votava no grupo escolar Mário de Andrade, Rua Joaquim Nabuco (Brooklin). No carro, a caminho dos locais de votação, eu sempre com a mania de fazer pesquisa, ia perguntando para os passageiros em quem eles iam votar.
De todos, além do chofer, somente um ia votar no Leôncio. Eu fui votar no Aurélio Campos, que era um locutor esportivo da rádio e TV Tupi, e morava perto da minha casa, Rua Geórgia, onde fui buscar a cédula contendo o seu nome, entregue por ele mesmo.
Dois outros iam votar em Jacinto Figueira Junior, o homem do Sapato Branco, um programa da TV Cultura apresentado por ele.
Mas o negócio não terminava ali. Quando terminava a votação, às 17h, tinha o cortejo de carros de praça, já comemorando antecipadamente a vitória de Leôncio, e o carro que ia à frente era da Odete, uma Chofeusa, uma mulher desquitada na época, a única a dirigir um carro de praça.
Os carros iam com gente de pescoço para fora das janelas gritando o nome de Leôncio e soltando fogos, fazendo uma tremenda gritaria e quem estava com a garganta seca, podia molhar: depois do cortejo, já tinha uns barris de chopp à espera de todos na padaria Marialva, Rua Clodomiro Amazonas, esquina da Joaquim Floriano, bem perto do comitê.
Era uma autêntica festa de democracia. Tinha, também, suborno de um candidato para estrepar o outro. Isso ocorreu em 1963, com um candidato me oferecendo vantagens na eleição para vereador quanto o clube que eu era diretor, Flamengo da Vila Olímpia, que apoiava para vereador Paulo Amparo, o chefe do cerimonial do palácio dos Campos Elíseos, do governador Ademar de Barros.
Podem acreditar, eu recusei tal oferta, pois não cabia-me apoiar dois candidatos sendo que o candidato oficial ficaria na clandestinidade conforme queria o candidato intruso.
Depois da eleição em que alguns seriam eleitos assim ou assado, vinha a demagogia tanto antes de eleitos, como depois. Nos comícios, cada um falava que ia fazer isso ou aquilo que todos sabiam que era impossível, mas todos fingiam em acreditar e gritavam: “Já ganhou, já ganhou!”.
Quando o candidato era um prefeito e queria ser governador, ele botava à prova o que estava disposto a fazer para o bairro onde o comício seria realizado. Na Vila Olímpia, em 1958, o então prefeito Ademar de Barros encheu a Avenida Dr. Cardoso de Mello de guias para acabar com aquelas águas das casas que deixavam a rua de terra um barro. No dia seguinte, ao comício, as guias foram retiradas e na certa, levadas a outro bairro onde outro comício seria feito.
Essa demagogia já vinha de anos antes. Em 1947, o governador Ademar de Barros foi inaugurar o viaduto do Gasômetro no Brás e um bando de prostitutas e motoristas de praça se faziam presentes, gritando e cantando: “Dotô, Vardemar, Vardemar, dotô…”.
Jânio, então, era a pura demagogia nos comícios. Quando ele era candidato a prefeito, em 1953, foi num comício num terreno baldio da Rua Joaquim Floriano onde Mazzaropi armava de vez em quando seu circo teatro. Lá, ele, em cima de um caminhão velho, interrompeu seu discurso para comer um sanduíche de mortadela e uma banana, dizendo que até àquela hora (21h), não havia comido nada. Seu território eleitoral era a Vila Maria, que depois de eleitofoi apelidada de “Vila Maria Arrependida”.
Havia corrupção também na contagem dos votos, segundo denúncia de quem estava perdendo ou já havia sido derrotado. Em 1954, Adhemar de Barros se declarou roubado e solicitou a recontagem dos votos. Seu pedido foi atendido e os votos foram recontados no Tribunal de Justiça Praça Clovis Bevilacua. Ao final, a vitória de Jânio Quadros foi confirmada até com mais votos do que na primeira contagem.
A apuração dos votos era feita manualmente, e aqui em São Paulo passou a ser feita no salão de exposição do Ibirapuera. O voto era por cédulas impressas com o nome do candidato, até 1957, onde se dizia que era fácil pegar um voto da urna e colocar outra cédula no lugar.
Em 1958, o sistema de cédulas foi modificado. As cédulas impressas foram substituídas pela cédula única. Qual a diferença? Na cédula única o eleitor escrevia o nome do candidato, com caneta de tinta azul, e na apuração a contagem era feita com caneta de tinta vermelha.
Então, resolveram fazer o voto eletrônico que, segundo eles, não teria como haver fraude, mas mesmo assim as denúncias não acabaram.
Sei não, o presidente da mesa eleitoral pode manipular o voto, pois ele deve saber em quem estamos votando e pode mudar o voto. Mas é apenas especulação. Vamos esperar qual será a novidade em termos de eleição… Seja qual for, sempre fica aquela desconfiança. Coisa normal no ser humano.
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