O meio ambiente, meu avô e meu professor: Itaim e Vila Nova Conceição

Deparo-me hoje com a preocupação com o meio ambiente e a questão de conscientização com o sistema de redes entre entidades, ONG disso, ONG daquilo, salva aqui, socorre ali, como se cada qual não tivesse uma parcela de sensibilidade mínima com tudo o que se refere a estas questões tão em pauta na atualidade.

Consciência é inerente ao homem, uns com mais, outros menos, mas ela existe, por isso acredito em sensibilidade com a natureza.

A minha família sempre viveu da cultura, aquela cultura de recolher a semente, secá-la por um tempo, plantar no tempo hábil, ver o "broto" sair da "mãe terra", andar com o regador para cima e para baixo e depois recolher o fruto daquela lida diária.

Depois fui receber outro tipo de cultura. Era eu, naquele momento, quem precisava ser semeado, regado, para ver se a terra era boa e iria daria bons frutos. Assim, quando havia recebido o fundamental do entendimento no "grupo escolar", fui para o ginásio, "novinho em folha", que era chamado com o nome pomposo de Instituto Estadual de Educação Estadual Ministro Costa Manso, nas novas instalações da Rua João Cachoeira, localizado onde descia margeando o muro o córrego do Sapateiro que, na outra margem, se instalaria depois o Mappin.

Sempre recordava de uma frase, que até hoje parece ser um lema, e que uma professora colocava no quadro negro: "O que merece ser feito, merece ser bem feito".

Hoje, esse mesmo quadro, em algumas escolas, é de cor verde, outros são brancos, e por vezes nem existem mais, parece uma mutação de tudo misturado numa mesma caldeira: escola do século XIX, professores do século XX e alunos do século XXI; isso demanda sensibilidade do que pode ser mudado e o que deve ser preservado, independente de massificação do saber de estruturas onde um simples exame consome cifras de milhões, sem participação dos grandes mestres da pedagogia, sendo simplesmente uma questão do Estado, que tem pressa no imediatismo da formação tecnicista em resolver um problema de produção momentânea.

Nós possuíamos um mestre na acepção da palavra, não daquele que lê 10 livros e recolhe uma parte dos dez e apresenta uma tese de cátedra, sentados nas bancadas das academias expondo e falando porque tem língua, sem uma análise critica da tese, muitos dos quais, raras exceções, mais interessado no título de mestre ou doutor por uma vaidade social.

Esse "mestre" chamava-se Maimone, enorme na minha óptica juvenil; era professor de ciências, admirava e observava seu estilo, por vezes "duro" em fazer-nos entender, outras de um bom humor que fazia-nos descontrair na sala de aula. Tinha o costume de rodar uma caneta em seu prontuário, apontava um número da chamada, e, pronto, estávamos escalados para sabatina oral.

Éramos agrupados em meia dúzia de alunos, os que não tinham a "luz da cultura", e assim éramos questionados. Precisávamos saber tudo quanto ele havia ministrado até aquela data. Por vezes engasgávamos, parecendo que só pegaríamos no tranco, e era assim mesmo: o respeito era tão grande que não ousávamos retrucar sua avaliação. Era humano e sabia de nossas limitações e, para recuperar a nota da tão desastrosa chamada oral, escalava-nos para cuidar da horta dentro do "Costinha", nome dado carinhosamente ao colégio do professor Athos, seu diretor de então.

Era com muito esmero que plantávamos, em canteiros preparados, couve, salsinha, alface e o que era de fácil manejo, que depois distribuía com satisfação.

Eu era um aluno mediano, com a peraltice costumeira juvenil, mas sempre gostei destas atividades que descontraia, além de recuperar minha nota 7, somatória dos 4 bimestres que perfaziam 49 pontos, com os pesos 1 no primeiro bimestre e 2 nos demais, para fugir do exame final.

O capricho era tanto que o professor de artes manuais, Lessa, fazia com sarrafo uma proteção em volta, e cada ripa era pintada de azul e branco.

Eu vinha de um costume familiar aonde meu avô Manoel, apelidado de Piscais, mantinha a horta orgânica da Vila Nova Conceição, na Rua Jacques Felix, verdinha para o sustento, curtida com terra estercada, nada com agrotóxico, acho que esse "nome feio" nem existia.

Meu professor Maimone hoje seria chamado para explicar esse envolvimento de mestre e aluno no conceito de horta comunitária e preservação do meio ambiente, além de aproveitamento da água que descia das calhas em dias de chuva, para a rega costumeira, nada de encharcar com mangueira das torneiras. No século XX, meu avô e meu professor seriam considerados exímios preservadores ambientais.

O tempo conta a história, e eu testemunho o fato como eterno aprendiz daquilo que tínhamos que cuidar como coisas públicas!

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