Através da vidraça

Ela era linda. Mais que isto: era uma visão etérea, espectral, quando pousava as sandálias naquele andar. De onde vinha? De outra divisão da firma, ele não sabia qual. Mais parecia vir de outro mundo.

Nem o que vinha fazer ali, falar com quem. Flutuava pelos corredores, parecendo dissolver-se no complexo de salas.

Era, para ele, o encanto daquela agência de publicidade na General Jardim, uma simples rua da Vila Buarque.

Linda e estranha. Morena, mas com a tez muito pálida, uma expressão esgazeada nos grandes olhos escuros, a longa cabeleira negra encaracolada. Vestia-se sempre de branco; trajes meio desconjuntados que lembravam mais anáguas, peças íntimas. Como uma ialorixá que tivesse perdido sua fé, uma noiva de um casamento desmanchado.

Ou, melhor ainda, um fantasma, uma lady inglesa fugida de seu castelo, de um conto de Poe. Meio hippie, meio louca, meio alucinação.

Como um reflexo fugidio numa vidraça, passava sem ver, nem falar com ninguém. Nunca olhava, nem para ele, nem para ninguém mais. Todos, para ela, pareciam também serem transparentes. Um mundo de vidro e ilusão. O mundo da vidraça, em que ela se isolava.

Por alguns anos, foi assim: impálpavel, preservando seu mistério em silêncio. Com que voz falaria, que língua? A dos anjos, talvez.

Mas todas as coisas mudam. A grande firma fora vendida, mudara-se de prédio e bairro. Da Vila Buarque para outra Vila, a Olímpia. Muita gente foi demitida ou saiu espontaneamente. Os sobreviventes se encararam, sobressaltados, e procuraram ficar mais unidos, para enfrentar a hostilidade da nova situação.

Assim, aquela bela forma de outra dimensão pareceu ligar-se mais à Terra e a seus habitantes. Ela passou a cumprimentá-lo, geralmente no elevador, e trocar algumas palavras. Até mesmo a sombra de um sorriso surgiu naqueles lábios.

Ele não lembrava como os fatos se encadearam, mas muito bem da culminância. Sem dúvida, houve crescente intimidade, ou nada teria ocorrido. Mas aconteceu. Ela estava em seu andar e, como sempre, de passagem. Viu-a numa sala fechada, através de uma vidraça. Aproximou-se do vidro, e ela também.

Então, como se tivessem ensaiado um século, ambos os lábios se colaram à vidraça. Um beijo louco, selvagem, de quase derreter em areia líquida a fina lâmina de vidro. Durou uns instantes; depois se afastaram, talvez embaraçados.

E sua história terminou assim. Tentou quebrar a vidraça, o gelo, convidando-a a tomar algo. Não. Não podia. Nunca pode.

O beijo continuou, impresso ardentemente nas duas faces da vidraça. Permaneceu lá, mesmo quando esta foi retirada. E com ela, a parede. E todas as paredes.

Tudo mudava novamente, a firma trocava de nome, de pessoas. Nunca mais se viram. Mas a aura vibrante do beijo continuou, frustrada, a latejar no mesmo ponto. A esperar, talvez, que os parceiros voltassem ali, algum dia. E repetissem o ato.

Desta vez, sem vidraça.

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