-Mãe, me dá um cachorro?
Foi esse o pedido que recebi de meu filho aos quatro anos. Pedido difícil de ser atendido, pois ele ficava boa parte do dia na escolinha e trabalhávamos o dia inteiro. Naquela época as normas do condomínio proibiam a presença de animais e também o síndico era o pai.
Tentei contornar a situação, aleguei que por ser muito novo não saberia cuidar de um cachorrinho, mas quando completasse 11 anos poderia cuidar e passear com o bichinho. O argumento foi válido. Fiquei feliz, pois consegui convencer. Maravilha! Pensei.
O tempo passou muito rápido. Numa bela tarde, já no final de 92, recebi com surpresa a mesma pergunta, desta vez formulada de forma diferente:
-Mãe, já tenho dez anos, lembra que você me prometeu um cachorro?
De nada valeram os argumentos. O pedido teria de ser atendido. Não adiantou o pai argumentar que ainda estava síndico.
No início de 93, fomos procurar. Pesquisamos qual raça poderíamos ter num apartamento, quando soubemos de uma ninhada de Schnauzer.
Fiz um verdadeiro dossiê com artigos publicados em jornais e revistas sobre a presença de animais dentro de um condomínio. Nestor chegou numa 6ªfeira antes do carnaval. Toda uma logística foi montada: o prédio estava quase vazio.
Sua presença foi muito discreta e aos poucos foi angariando a simpatia das crianças. Já no período da Páscoa, devidamente vacinado e vermifugado, foi apresentado aos moradores do Edifício Primavera.
Recebido com surpresa, alegria, indignação e até ameaças mas nesta altura eu já contava com aliados: as crianças, filhos dos moradores.
Foi um verdadeiro aprendizado, apesar de passar minha infância rodeada por cachorros, era a primeira vez que cuidaria em tempo integral, lógico com a ajuda do filho, afinal de quem era o Nestor?
Tive minha vida modificada. Levantava mais cedo para poder passear com ele, pois o filho estudava no período da manhã. Ao voltar á tarde, saia de novo, pois o filho estava no inglês. Esses passeios me proporcionaram uma nova visão do bairro, pois até então conhecia pouco a Padre Machado.
Fiz amizades sempre acompanhada pelo Nestor. Caminhávamos pela Bela Flor, Ouvidor Peleja, Afonso Celso, Loefgren.
Desta forma conheci a Zélia que adorava dar pão para os cachorros, o dono da banca de jornal, o pessoal do posto de gasolina, lavanderia, padaria entre tantos outros.
Minha casa nunca mais ficou organizada. Quando chegava do trabalho via o resultado: colegas da escola e amigos do prédio costumavam marcar presença.
Aos poucos, os vizinhos foram aceitando a presença do Nestor e desta forma chegaram Tojo, July, Baby, Tuty, Ares entre outros.
Em 2007, já com 14 anos sua saúde foi ficando frágil. Já não tinha a rapidez dos primeiros anos. Seus passos foram ficando cada vez mais vagarosos, mas continuava amigo das crianças, agora não tão crianças.
Neste mesmo ano mudamos para o interior onde também fez amigos. Depois de quase dois anos de tratamento, somente seu coração permanecia saudável. Sempre nos acompanhava como uma sombra, mas com luz própria.
Hoje está presente em nossa memória e quando vou à Vila Mariana encontro sempre amigos que ele me ajudou a conquistar.
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