A primeira vez é sempre inolvidável

Meados de maio. Minha filha caçula interna-se na Pro-Matre para receber, pela segunda vez, as bênçãos da maternidade. Por volta das 17h, ela deixa o apartamento acompanhada de um séquito que iria assistir ao parto, menos eu, lógico, pois não gosto nem mesmo de presenciar sutura de supercílio de jogador de futebol, quanto mais uma cirurgia de minha própria filha.

Sob protestos gerais, fui para a rua e pus-me a caminhar aleatoriamente; São Carlos do Pinhal, Brigadeiro Luiz Antonio, José Maria Lisboa, Avenida Paulista, Pamplona, Paulista… O estacionamento enorme repleto de veículos, as grades de ferro, o portal, sem o brasão da família, a mansão dos Matarazzo… Parei, toquei os desenhos metálicos desenvolvidos pelos serralheiros do início do século passado, e, como num passe de mágica, voltei aos anos 50, quando, pela primeira vez, eu vi a Paulista.

Como ocorria todos os anos, nas proximidades do Dia de Finados, minha mãe, avó e tias, acompanhadas das crianças, empreendiam visita à campa de meu avô materno no cemitério de Vila Mariana. Naquele ano, como havia sido inaugurada nova linha de bonde, a 64-Vila Mariana-Lapa, minha mãe decidiu que a volta para casa, na Lapa, não seria a que tradicionalmente fazíamos através de ônibus até a Praça da Sé e, posteriormente, outro até nossa casa; desta vez iríamos apanhar apenas uma condução: o bonde 64 Vila Mariana-Lapa.

Após longa caminhada do cemitério até às proximidades do Largo Ana Rosa, apanhamos o barulhento bonde aberto que seguiu pela Domingos de Moraes, largo do Paraíso, Bernardino de Campos, Praça Oswaldo Cruz e a Paulista…

O trânsito naquela tarde garoenta estava infernal. Filas de bondes nos dois sentidos e nas laterais das pistas os Fords, Chevrolets, Buicks, Studebackers enroscavam-se com os ônibus -auri-rubros da CMTC; tudo para sorte minha, que pude curtir a imagem da Paulista com seus casarões, palacetes e até mesmo alguns moradores nas janelas ou sacadas cobertas. Esta imagem permanece intacta em minha mente, e as grades e o portal da mansão Matarazzo levaram-me de volta àquele inolvidável dia em que vi a Paulista pela primeira vez.

Ao retornar ao apartamento 419 da Pro-Matre, minha filha já estava em seu leito e, logo após, uma simpática enfermeira trazia Liz, a mais nova paulistana ávida pela sua primeira refeição…

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