Meu Pai nasceu ali, na Alameda Olga, na Barra Funda, no pequeno porão habitável que residiam, minha avó, sua mãe, seu pai e irmão. Foi ali no frio de maio de 1917 que ele nasceu, veio para mundo.<br><br>Pobre, foi crescendo pelas ruas da Barra Funda com amigos também pobres que ali viviam naqueles idos de uma São Paulo que naquele tempo era sim "uma Londres de neblinas finas" no dizer do poeta.<br><br>Foi pouco na escola, teve que trabalhar cedo para que a mãe, viúva jovem, pudesse sobreviver e criar dois filhos, eram três, mas o mais velho morreu sobre as rodas de um carroção, ainda pequeno.<br><br>Um dia me contou que num grande vale que havia ali perto começaram a construir um estádio de futebol onde ele e alguns amigos ficavam escorregando e brincando pelas encostas íngremes que havia no local, onde seriam erguidas as arquibancadas. <br><br>Sim, ele viu construir e inaugurar o Estádio do Pacaembu, onde um dia me levou menino para ver jogar o Rei do Futebol.<br><br>No Largo Padre Péricles, na Igreja de São Geraldo, casou com minha mãe, que morava ali bem em frente ao Largo.<br><br>Meu pai viajou o mundo para sempre voltar para a Barra Funda, onde nasceu e cresceu, e onde um dia morreu, assim de repente, aos 52 anos de idade, vitimado "pelo golpe de clava de um derrame".<br><br>Às vezes passo ali em frente da Alameda Olga e vislumbro ainda algumas casas com porões habitáveis que, pode ser, tenha abrigado meu pai na sua infância e no seu nascimento naquele longínquo ano de 1917.<br><br>A Igreja de São Geraldo ainda está lá, grande, agora cercada por grades, em frente a escola freqüentada por minha mãe, cheia de árvores e muito bem cuidada, com seus muros caiados e limpos.<br><br>Próximo dali fica a Rua Lopes Chaves. Saudade.<br><br><br>E-mail: [email protected]