Fragmentos. De memória paulistana.

I – Meados dos anos 50. Eu, moleque vilamarianense. Da São Paulo ainda fabril. De uns três milhões de paulistanos. Abrindo (ampliando) horizontes para vir a ser metrópole, mais que cidade enorme. E eu via aqueles ônibus, vermelhos, da CMTC. Principalmente na Domingos de Morais. No letreiro: CIDADE. Que, no caso, era a João Mendes. Ou a Sé. Até mesmo o Anhangabaú. Os bondes, estes não. Não falavam CIDADE no letreiro. Era capricho só de ônibus, não?

II – Ônibus aqueles – vim a saber bem depois – que eram mecânica inglesa: chassis, motor e tudo mais. Porém, “encarroçados”, cá em São Paulo pela Grassi. Tradicionalíssima, da Conselheiro Nébias, perto do Palácio dos Campos Elíseos. Já a partir de 1956, vi nos jornais de arquivo, a CMTC os reformou. Botando neles cara nova, carroceria chamada de "padrão". Ônibus que sacolejavam bem. Eu, moleque, gostava.

III – Eu notava a diferença. Que contemporâneos de meus 62 aninhos de paulistanice hão de lembrar. A alavanca de câmbio – "trambulador", que ninguém falava – a daqueles ônibus ingleses; ela não era no chão, como de comum. Era, isto sim, uma alavanca curtinha. Dentro de uma engenhoca situada sob o volante do motorista. Falavam (como se eu entendesse): "câmbio semi-automático". E o que era "câmbio", hein? “Aquele troço que muda a marcha a toda hora”, explicavam. Ah, bom!

IV – Aqueles ônibus de há meio século minha retina ainda grava. Fragmentos. Sessão nostalgia. Eles predominavam em Vila Mariana e região. Onde só dava CMTC (ônibus e bondes). Linhas 11, 12, 47 e 48 é que tinham deles. Linhas tais que a CMTC herdou da Auto Viação Parque Jabaquara em 1947.

V – Pois fuçando jornais de arquivo é que revigorei minhas lembranças fragmentadas pela erosão do tempo. Afora os herdados da Parque Jabaquara, chassis outros foram importados para a CMTC em 1948. Ingleses, entretanto com o volante já do "nosso" lado. Ao contrário de nos caminhões de mesma marca os quais, em Congonhas, tinham o volante do lado direito e abasteciam as aeronaves – Real, Vasp, Panair, Varig… – caminhões amarelos da Shell. Muitos lembram.

VI – Daquele tipo de chassis ingleses, muitos foram “encarroçados” pela mesma Grassi – curioso lembrar como memória – para um ônibus "especial". Chassis de grades do radiador e aros das rodas dianteiras inconfundíveis. Tais ônibus diferentes eram assim: de motor dianteiro, a frente não era reta; era seccionada. O assento do motorista ficava mais à frente, isolado do "salão" como que numa caixa de vidro (janelas). O farol esquerdo embutido na lataria. A frente, do lado direito, é que era recuada! O farol, desse lado, sobre o pára-lamas, tal qual um caminhão! Coisa de inglês… Comuns no Rio de Janeiro; o carioca os apelidou de "Camões": um olho só! É claro que tais ônibus não tomaram o caminho para as Índias, mas, por certo, rodaram – e muito – por ruas e bairros nunca dantes navegados…

VII – No abissal de minha memória. Uma fugaz lembrança daquele tempo longínquo. Eu tomando um "Camões" da CMTC, ponto final do 48-Paraíso. Se é que a CMTC os teve! Talvez, até seja um equívoco meu, uma "alucinação" de nostalgia (inofensiva). Contemporâneos de mim que gostam de ônibus antigos: estarei inventando? Confirmem – ou ao menos não me deixem mentir sozinho… Para mim, mesmo que não verídico, eu andei no "Camões": da CMTC.

VII – Velhos coletivos ingleses. Rodaram muito. Resistentes. Descaracterizados, por sucessivas reformas nas oficinas da CMTC. Menos o sacolejo. Ajudaram a CMTC a fincar suas raízes. Até meados dos anos 60 – quando da última "versão" – rodaram numa linha específica.

IX – Os carros derradeiros, daqueles ingleses, faziam a linha Santana-Jabaquara. Percurso exatamente aquele o qual, sob o chão, viria a cobrir a primeira linha do Metrô! Com a diferença de que, na zona norte, o metrô pega a Cruzeiro do Sul, enquanto aqueles ônibus subiam e desciam a Voluntários da Pátria. Linha, então, operada simultaneamente por CMTC e Viação Nações Unidas. Aquela, com os veteranos carros ingleses, esta com os então novíssimos monoblocos Mercedes, os belos Super B. Com o alvorecer do Metrô, a linha de ônibus evaporou.

X – Velhos ônibus ingleses ACLO, da CMTC. O nome, uma sigla. Ônibus dos quais também me recordo, de moleque, na Domingos, sempre cheios. Linha 12-Jabaquara. Tanto que era inútil aquele pequeno letreirinho. Que era para andar "aceso": LOTADO – isso quando não pudesse mais apanhar passageiros. Que o motorista nem acendia. Letreirinho localizado por detrás do pára-brisa, não? Nunca funcionava. Era só "para inglês ver"…

XI – Precisava? Vinham tão lotados aqueles ACLO que a porta de trás – por onde a gente subia – nem fechava. Passageiros em pé nos degraus. Letreirinhos inúteis. Nasceram e morreram mudos. E ninguém nem lhes dava atenção. Sumiram com o tempo. Só a superlotação sobreviveu.

XII – Se não propriamente "memória", pelo menos lembranças pitorescas do transporte paulistano, aqueles velhos ACLO da CMTC. Dos quais, claro, não sobreviveu um. Que a sucata, ela os devorou a todos: a memória do transporte se cansou dos sacolejos daqueles ônibus. Que tentassem sacolejar debaixo de maçarico e marreta… Já a internet… Lá ainda dá para ver. E até matar a saudade, em termos. Pois restam guardados alguns ACLO. Na Inglaterra, no Canadá ou na Austrália. Com o nome dado por outra sigla: AEC. Ônibus pitorescos. Testemunhas da evolução dos desenhos de carrocerias e da mecânica dos anos 30 e 40. Radiadores, rodas e faróis inconfundíveis. De frente reta ou "Camões". Entretanto, a mesma internet não abastece de todo a nostalgia. Porque nenhum daqueles ônibus é o 12-Jabaquara. Nem o 13–São Judas. Muito menos o 47-Vila Clementino ou o 48 – Paraíso. Nenhum deles é um ACLO da CMTC. Mas são fragmentos de memória.

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