"Alcides, 'cê' tá louco? Caxinguí? Onde é que fica isso? É no Brasil?". Era mais ou menos assim que os amigos de meu pai reagiam ao saber que iríamos mudar do bairro da Vila Clementino para o desconhecido bairro da Previdência, uma espécie de apêndice do ainda mais desconhecido bairro do Caxinguí. E, pensando bem, até que eles tinham alguma razão.
Corria, então, o ano de 1954, o ano do IV Centenário da fundação de nossa cidade, eu tinha 13 anos, faria 14 em abril e minha vida de adolescente começava a tomar certo rumo, começava a fluir sem grandes sobressaltos ou percalços. Estudava no Colégio Santo Agostinho, tinha meus amigos de bairro, todos vizinhos, jogava futebol nos campinhos da vida, ia à praia com certa regularidade, passava parte das férias escolares em casa de meus padrinhos no interior (na cidade de Franca)… 'Tava' tudo muito bem, até que veio a mudança…
Não sei precisar a data, mas foi algumas semanas depois do 25 de janeiro que os "pobrema" começaram. Melhor explicar: ir ao colégio, por exemplo, era uma caminhada pela Rua Loefgren, ou a Pedro de Toledo, até a Domingos de Morais, onde tomava o bonde em frente ao Arquidiocesano para a Rua Vergueiro; escadaria, Praça Sto. Agostinho, e porta do Colégio. Chegou atrasado? Diretoria e 100 cópias do artigo 16 do regulamento do colégio; o caminho inverso para voltar, é óbvio. Demorou pra chegar em casa? De vez em quando uns tabefes, qualquer que fosse a explicação. Nada muito sério, nada que provocasse um ódio mortal ou desejo de vingança, e, além do mais, eles quase sempre tinham razão, convenhamos…
Bem, casa nova no Previdência, ir para o colégio: sair de casa às 5h da manhã, caminhada até o Largo de Pinheiros (chovendo ou não), tomar o bonde até a Consolação com a Paulista (melhor dizendo, brigar para tomar o bonde!), outro bonde até a Rua Paraíso, descer a Vergueiro, escadaria, etc., etc. …
Mas, verdadeiramente, ali na batatolina, não era esse o escopo (batatolina, escopo, hein?! Que pernóstico, meu! Baixou o Santo Arcaico em mim, hoje…) deste text; não quero contar minhas desventuras no bairro novo. O que eu quero, mesmo, é falar dos pontos de referência que eram apontados por nós e por nossos vizinhos, uma espécie de orientação para se chegar em casa:
– Olha, depois que atravessar a ponte do Rio Pinheiros, tem uma paineira enorme no início da subida da Estrada de Itapecerica (A Avenida Francisco Morato ainda tinha esse nome até fins dos anos 50s), só um cego não vai enxergar. Seguindo em frente, minha casa é no 1490…
A gente também apelava nas explicações, procurava mostrar uma certa intimidade com algumas pessoas:
– No começo da subida, depois que passar a paineira, do lado esquerdo tem uma placa de madeira escrito "Rancho do Nhô Totico", o Nhô Totico, aquele, você sabe, que tem programas no rádio. Pois é, ele é quase meu vizinho, o vejo todo o dia… Daí é só seguir em frente, no 1490 da avenida…
Um belo dia, sabe-se lá a razão pela qual, o Sr. Emílio Guerra resolveu que o bairro merecia mais ônibus (eram quatro ônibus que faziam o percurso Anhangabaú/Taboão da Serra – então bairro de São Paulo, dois indo e dois voltando) e colocou mais oito ônibus, que ele estava disposto a cometer loucuras, como se denota. O importante é que houve uma melhora no transporte coletivo de nossa região, a ponto das explicações ficarem mais complicadas:
– …Passando a ponte, tem uma paineira enorme que cobre todo aquele pedaço, embaixo tem uma "gurita", depois tem a casa do Nhô Totico e blá, blá, blá…
A tal "gurita" era uma guarita que ficava sob a copada da paineira; nunca soube pra que servia aquela guarita; talvez ela protegesse uma placa de bronze incrustada numa lajota de granito negro: "Paineira plantada pelo Prof. Dr. Vital Brasil em xx de xx de 1940".
Como vêem, a lenda que o Regente Feijó descansou à sombra da paineira nos primórdios do século XIX era "grupo", bastava subir no canteiro e ler os dizeres da placa… O que eu sei é que era difícil sair ou chegar em casa. Ficamos muito tempo sem receber visitas, era uma época em que pouquíssimos tinham carro e se dependia muito do transporte coletivo…
Ia esquecendo: à noite, depois das 20h, o lugar ficava um pouco, digamos, perigoso. O espaço entre a ponte e a paineira – atual Praça Jorge de Lima – era conhecido como "Largo da Paz", que de pacífica não tinha nada, área de domínio dos cavalariços do Joquei Club, com centenas de baixinhos invocados que usavam facas e chicotes e estavam sempre dispostos a procurar encrenca e a brigar por qualquer motivo depois do terceiro rabo de galo, goela a baixo.
O Largo da Paz era rodeado de frege-moscas e tinha os tipos mais malucos de fanáticos por corridas de cavalos. Lembro bem de um sujeito muito bem vestido, gravata borboleta, sapatos engraxados, terno completo e um rabo de cavalo. O infeliz relinchava e galopava pelas calçadas do Largo e da Avenida Vital Brasil… De certo um turfman com um discreto probleminha, nada muito grave…
A Paineira? Foi assassinada. A "gurita" e a placa sumiram. Nhô Totico? Morreu e seu rancho morreu com ele… A avenida mudou de nome e foi duplicada e acabou se transformando num corredor comercial.
Hoje o bairro tem até linha de metrô (dizem que um trecho vai ser inaugurado logo) e eu, 56 anos depois, continuo por aqui, prisioneiro dentro de minha casa.
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