Em 1960, minha irmã, já casada, convidou-me para passar uns dias em Peruibe. Eu tinha então 11 para 12 anos de idade e morava no bairro do Braz.
Para facilitar a viagem, eu iria dormir no apartamento onde eles moravam, no bairro da Bela Vista, pois iríamos sair muito cedo para pegar o trem na estação Julio Prestes.
Naquela tarde, devidamente municiado de shorts, toalha de banho, e mais uma troca de roupas que minha mãe colocou numa sacola, peguei o ônibus na Rua do Gasômetro e fui para a casa deles.
À noite, véspera da viagem, minha irmã disse que precisava comprar alguns cosméticos, e pegamos o bonde que vinha da Avenida Angélica e descemos no final da Paulista, bem pertinho do prédio da Sears.
Eu nunca havia estado numa loja de departamentos, e fiquei abismado ao ver tanta coisa junta. Era roupa, brinquedos, máquinas, coisas para casa, móveis, e uma que me marcou profundamente… Uma calça jeans da Sears Roebuck, daquelas que descoravam.
É claro que eu nem podia sonhar em comprá-la, pois o que eu usava era calça rancheira da Alpargatas, quase sempre compradas na Pernambucanas da Avenida Rangel Pestana, mas não custava nada perseguir um sonho.
Passaram alguns anos até que meu pai montou uma vidraçaria na Rua Alfândega, e eu, já com meus 14 ou 15 anos, ganhei de meu pai uma nota de CR$ 500, e não tive a menor dúvida. Iria comprar aquela calça.
Peguei o bonde no Gasômetro e depois outro bonde até o Paraíso e, finalmente, cheguei à Sears e pude experimentar as calças até encontrar uma que me servisse.
Gastei praticamente todo o dinheiro, mas voltei para casa com um embrulho precioso debaixo do braço, e a sensação gostosa e ilusória de que aquela calça faria uma grande diferença se comparada com as calças simples e modestas que eu sempre usava.
Aprendi que aquele dinheiro dado pelo meu pai poderia ter proporcionado uma compra de diversos itens, e que naquele momento eu tinha simplesmente uma calça. Poderia ter usado o dinheiro com mais sabedoria…
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