Num prédio da Líbero Badaró, Carmine!

Um dia desses passei pelo nosso lindo e esquecido centro da cidade, numa manhã dessas bem escuras, cinza, que lembrava muito bem o clima dos antigos filmes americanos.

Cruzando a Rua Líbero Badaró, não resisti: passei por esse local mágico da minha vida profissional.

Cheguei bem próximo ao exótico edifício que foi sede durante muitos anos do Banco de Boston, mas notei tudo ali mudado. Desde a outrora movimentada portaria, até as saídas dos fundos pelo Anhangabaú, algo estranho pairava no ar.

Este prédio se localiza em um dos pontos mais bonitos de São Paulo. Falar bonito é relativo, pois tudo desde 1990 se deteriorou com uma velocidade extraordinária, e nada foi feito ao menos para conservar a memória.

Foi nesse prédio onde trabalhei por quase dez anos, e passei a fase mais importante da recente história do Brasil e de suas transformações.

Foram as diretas, greves bancárias, eleições presidenciais, impeachment, crimes e copas do mundo, sempre ao lado de meus diletos colegas do banco. Não tenho palavras para agradecê-los por todo esse tempo de convivência.

Mas a minha memória estava quase sendo apagada pela escuridão do dia quando voltou como por milagre a imagem de uma pessoa a quem devo a maior afeição: meu chefe, o Sr. Carmine Rago.

Jovem, destemido, detentor de uma inteligência e raciocínio pouco comum entre os mortais contemporâneos, destacava-se a mais perfeita das virtudes do ser humano: o caráter e sua dignidade. Inundado em competência e atitudes inovadoras, como não poderia ser tinha também grandes inimigos: aqueles que sentem desgosto pela prosperidade alheia. Sim, eles mesmos, os fracos e invejosos. Mas Carmine não lhes deu nenhum sinal de revanche. Ao contrario, os contemplava com oportunidades que nem sempre eram entendidas e muito menos aproveitadas. É assim que os pobres de espírito sempre reagem.

E como por um momento, lembrei-me que nosso grande amigo partiu para um lugar bem melhor do que habitamos agora, no último mês de maio.

Na verdade, somente seu espírito que se foi, porque sua luz ainda paira no 17º andar do Edifício Bank Boston.

Quem passar pelo centro de São Paulo em noites escuras, certamente se deslumbrará com o brilho emanado do alto de um prédio na Libero Badaró.

É a energia positiva do Carmine que jamais cessará.

Amigo, nos veremos em breve, quem sabe em um outro ponto desse universo, tão charmoso como o antigo centro de São Paulo. Obrigado por tudo!

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