Eram tios e primos que não acabavam mais! Todos chegando de vários lugares do Brasil. Meu avô fazendeiro também não faltava! Ele vinha da fazenda de Goiás, mais precisamente de Anápolis, há menos de uma hora de Goiânia.
A casa cada vez mais cheia! E olha que era bem grande. Era não, ainda é. Essa casa era da minha avó, que já havia se separado desse meu avo havia muitos anos, por ele ter se dedicado exclusivamente às fazendas (eram cinco fazendas).
Mas, voltando à casa, era só felicidade ver tantos primos juntos. E que bagunça! Imaginem os quartos cheios de moleques só a aprontar… A minha especialidade era fazer ronqueiras! Pra quem não conhece, ronqueiras são “armas” caseiras. De vez em quando, atirávamos no quintal que não era pequeno e o vizinho, que era um senhor português, bradava.
E, assim, ia chegando o Natal, entre um tiro e outro. A casa cada vez mais cheia!
Alguns dormiam na sala, outros nas dependências das empregadas e, assim, se aproximava o tão esperado Natal! No almoço, meu avô contava casos entre um copo de vinho e diversas outras coisas, casos esses que eram ouvidos com muita atenção, visto que a gente estava morrendo de fome, mas não podíamos começar a comer antes de meu avô dar início aos trabalhos gastronômicos!
As empregadas tinham que esquentar a comida diversas vezes devido à demora… E deviam adorar!
Naquela época, não tinha sido inventado o microondas. A mesa era estendida, mas, mesmo assim, alguns comiam na cozinha. Naquela época, os pequenos comiam antes, mas, por se tratar de Natal, quase todos almoçavam juntos.
À noite, então, começava a troca de presentes! Meu querido avô Afonso me chamava e me dava dois cruzeiros! Lembro-me que era uma nota alaranjada que eu pegava e ia à Sears lá no Paraíso, gastar tudo em ferramentas… Outros me davam canetas que eu adorava e eram Parker 21 ou 51!
Meus pais haviam se separado há alguns anos e eu estava morando com essa minha avó. Meu avo não gostava de ser chamado de “vovô”! Tinha que ser “Dr. Afonso”.
Meus tios Sidney e Alice tocavam violão muito bem, arte que me ensinaram depois. O meu tio Nelson cantava muitas serestas. O meu pai, com a voz linda que Deus lhe deu, a cantar Dorival Caymi, Silvio Caldas.
Minha vida era um palco iluminado e eu, vestido de dourado, palhaço de perdidas ilusões… Às vezes, acordo no meio da noite e penso: “Não é possível que tudo isso tenha morrido/acabado”! Acho que as pessoas não deviam partir. Bate tanta saudade que, às vezes, eu choro.
Saudades desses entes queridos… Eu devia ter dito que eu os amava um monte de vezes! Perdi minha mãe não faz muito tempo e só espero que todos nos possamos nos encontrar um dia, quem sabe, para passarmos muitos mais Natais em outros mundos… Aí, eu juro que vou gritar bem alto: “Eu amo muito todos vocês”!
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