Siga a seta do tempo

Chegamos. Década de 40. Ligamos o nosso radinho que mais parecia um castelo e procuramos nossa estação preferida, que com certeza estaria transmitindo uma das nossas inesquecíveis novelas que nos causavam tanto enlevo, já com nosso lencinho bordado, de prontidão, porque se a heroína chorasse, choraríamos juntas.

As novelas de rádio, ao contrário do que muitos pensam, era uma arte maravilhosa, tanto para os rádioatores que as interpretavam com maestria como para os ouvintes que as seguiam, porque faziam com que suas cabeças trabalhassem construindo os cenários e os personagens.

Hoje, com a TV, essas cabeças deixaram de criar, porque já encontram tudo pronto. Falo com conhecimento de causa, pois vivenciei isso por cinquenta anos, tempo que durou minha carreia de radialista. Radialista, para os que não sabem, foi a palavra criada por Tumam, que juntou rádio e idealista para designar os sonhadores que dedicavam suas vidas ao rádio.

As estações transmitiam excelentes programas e musicais com apresentações de grandes orquestras como: Gao, Guerra Peixe, Osmar Milane, Silvio Mazuca, Marcelo Tupinambá; e ótimos cantores: Osni Silva, Dalva de Oliveira Herivelto Martins e Nilo Chagas. Quem não se lembra da "bandeira branca amor"?

Os programas de humorismo, sempre bem sadios; grandes teatros, com lindos espetáculos; mas as novelas sem dúvida contavam com a maior audiência.

Recebíamos cartas sempre muito elogiosas, às vezes até apaixonadas de fãs de quase todo o Brasil e nunca as deixávamos sem resposta, enviando junto a nossa foto que, sempre ao verso, apresentava a propaganda de nosso patrocinador como, por exemplo, Rodine, a boa enfermeira.

Impossível citar só uma, ainda que apenas as de maior sucesso, pois todas as rádios transmitiam um grande número de novelas.

Tive oportunidades excelentes em todas as emissoras que emprestei meu trabalho de radioatriz, iniciado na Rádio Piratininga e chegando até a Nacional, hoje Globo, fosse como a ingênua, a sarcástica, dramática e até em papéis característicos, como criança, negrinha de fazenda, preta velha, cômica e até estrangeira.

As novelas apresentadas pelas rádios eram sempre cuidadas com carinho. Havia ensaios, às vezes cansativos, até que os atores se identificassem com os personagens. Os diretores eram pacientes, mas exigentes. Na Rádio São Paulo, que ficava na Brigadeiro Luiz Antônio, e que foi comprada por Paulo de Carvalho, que já era dono da Rádio Record e que transmitia novelas das 8h às 23h. Um dos diretores costumava dizer ao ator que tinha um pequeno papel: “Você tem poucas falas, mas elas devem ser ditas e muito bem ditas”. E assim era.

Era uma arte difícil, porque era preciso expressar emoções, fossem elas quais fossem. Tínhamos como recurso apenas a voz e o auxílio do contra regra, como Geraldo Cunha, que era o encarregado de usar mil artimanhas para fazer os ruídos que as cenas pediam: passos, abraços, beijos, chuva, incêndio, porta, assoar o nariz, latido de cachorro, cavalo a galope e…

A sonoplastia era também muito bem cuidada. Geraldo Blota que o diga! Os sonoplastas dançavam miudinho em suas mesas de som. Até a publicidade era ao vivo. Esse era o nosso grande desafio: tudo ia ao ar ao vivo. Qualquer erro que se cometesse não adiantava chorar o leite derramado, porque já havia sido transmitido e os diretores já estavam furiosos! Vamos lembrar alguns deles: Agostinho Aguiar Leitão e Talma de Oliveria (Radio São Paulo), Raimundo Lopes (Piratininga e Difusora), Otávio Gabus Mendes (Rádio Tupi), Oduvaldo Viana (Pan-americana, hoje Jovem Pan), Júlio Atlas (Cosmos, hoje América), Cassiano Gabus Mendes (Cruzeiro do Sul, hoje Rádio de Piratininga), Farid Riscalah (Bandeirantes, Excelcior e Nacional), Luiz Pini (Globo).

Ah… Se pudesse falar de tudo e de todos! Apenas poucos títulos de novelas: A Cruz da Estrada, Quando o Ipê Reflorir, a Enjeitada, Tabatinguera, Entre dois mundos, O Crime da Meia Noite, O Direito de Nascer, Presídio de Mulheres, e… Quarenta anos de novelas com grandes intérpretes: Tilde Serato, Regina Macedo, Tânia Castilho, Sônia Maria, Amélia Rocha, Dionisio de Azevedo, Odair Marzano, Walter Foster, Henio Rocha e o desfile continuaria por muitas páginas…

Creio que já deu para enxugarmos nossas saudosas lágrimas e, com fé em Deus e pé na tábua, vamos enfrentar a programação deste século.

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