Em 1981, trabalhando como médico neurocirurgião na Beneficência Portuguesa em SP, durante um plantão noturno fui chamado na UTI para fazer uma avaliação neurológica.
O plantonista da cardiologia explicou-me sobre o caso de um paciente que se encontrava ligeiramente agitado em um pós-operatório. Ao chegar ao leito, percebi que já conhecia aquelas feições.
Olhei para o colega que, com um movimento da cabeça, confirmou minha certeza. Acho que era a primeira vez na vida em que, como neurocirurgião, iria examinar um mito.
Clinicamente, o paciente encontrava-se um pouco agitado no leito, com certa sudorese, pressão arterial estável, boa diurese, hemodinamicamente bem, porém, utilizando certas palavras de uma maneira inusitada.
Ao dirigir-me a ele, fitou-me nos olhos e perguntou:
– Nos conhecemos?
– Dos palcos da vida – respondi.
– O senhor é ator?
– Só na minha fantasia – eu disse.
– Já vale.
Sorrimos e ele me pediu para tirá-lo dali. Mais algumas perguntas e percebi que se tratava apenas de algo transitório.
Disse ao colega que não havia necessidade de medicações e que eu o acompanharia por alguns dias. Sugeri também que o paciente poderia ir para um apartamento nas dependências do hospital. E assim foi feito.
A cirurgia foi um sucesso e nosso paciente, com melhora gradual, foi se recuperando. Em dois dias, já deambulava pelo quarto; e no terceiro, seu primeiro passeio pelos corredores do hospital.
Um charme! Com seu robe vermelho bordô, passeava pelas alas do hospital e cumprimentava a todos com elegância e respeito incomum. Recebia carinho ou gesto festivo de cada qual que passasse por ele, retribuindo com galhardia. Um gentleman! Um espetáculo; um show!
O mortal aqui se orgulhando do diagnóstico e da posição adquirida naqueles dias; afinal, se alguém quisesse um autógrafo, tinha que se dirigir ao doutor para ver se podia. Mas todos o respeitavam tanto que sequer se atreveram a molestá-lo.
Ao seu lado, a companheira fiel, tranquila e doce, que sempre o acompanhou. Fazia-me poucas perguntas. Ele, obediente, sensível, que a tudo e a todos agradecia.
Às tardes em torno das 15h, lá ia ele… Pijama de calças curtas, andar tranquilo, parecendo um passeio no parque. E eu atrás, de longe, numa mistura de análise médica da situação, acompanhada de uma tietagem imensa. Não pedi nenhum autógrafo. Nem precisava. Mais uns dois dias e até breve. "Se precisar posso ligar para o senhor?". Ele era simplesmente um mimo.
Passado alguns anos, fui ao teatro vê-lo em ação. Que memória! Uma peça longa de William Shakespeare escrita em 1606, Rei Lear, que aborda a relação dos filhos para com seus pais. Durante a peça, minha torcida era para que não houvesse nenhum deslize. Em cada pausa da peça, um medo me abatia. Mas era só medo meu mesmo, porque ele estava melhor do que nunca.
Levei meus filhos para assistirem. Eram tão pequenos que nem sei como nos deixaram entrar. Tive que colocar almofadas nas cadeiras para que eles ficassem a certa altura para poderem ver o espetáculo. E que espetáculo! Um primor de montagem. E lá se foi meu herói, falando, encenando…
Confesso que quando ele se assentou para uma longa fala do rei, fiquei sem respirar um bom tempo. Ele transpirava e eu suava. Essa fala não acaba nunca! Esse Shakespeare não tem coração! Como pode escrever uma fala destas? E assim foi. Um grande sucesso. Ovacionado ao final.
Ao término, fiquei ali um tempo. Relembrei novamente os fatos passados. Por que não uma chegadinha no camarim? Será que se lembra de mim? Pouco provável, afinal, foram tantos que o atenderam, e por muito mais tempo do que eu. Tomei coragem e avante.
Uma multidão o cumprimentava. Ele transpirava como nunca. “Meu Deus, que perigo”, pensei. Mandei esse médico dentro de mim calar a boca e me entreguei de fã.
Custei a chegar perto. Ao vê-lo, ainda de longe, um olhar! E que olhar. "Dos palcos da vida, venha cá me dar um abraço", ele disse. Correram lágrimas nos meus olhos. Minha galera veio atrás e nos abraçamos. Agradeceu-me várias vezes, junto com a esposa, pelos feitos lá no hospital. Contou-me cada detalhe dos fatos, que eu também tinha vivido, só que me contava com mais vida.
Naquele momento, acho que entrei dentro do tempo e de tão emocionado, pouco me recordo das palavras. Mas me lembro das expressões do seu rosto: alegre, educado, simples, gentil, emocionado, sincero, agradecido, realizado, cansado, feliz. Nunca mais o esqueci, Paulo Autran.
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