São Paulo, é impossível viver sem esta cidade que tem um pedaço do mundo a cada esquina. Podemos viajar, mudar, fugir, mas ela sempre nos traz de volta. Que cidade linda e acolhedora, maltratada e descuidada pelos governantes, mas charmosa, intensa e colorida.<br><br>Nasci nesse pedacinho do Mundo, no bairro do Ipiranga, morei também no Tatuapé, mas foi no Ipiranga,esse bairro que vicia pela paisagem do Museu do Ipiranga, pelas ruas que ainda teimam em manter os velhos sobrados, onde em sua maioria moram os nossos tios e avós, descendentes de bravos italianos e portugueses e outros imigrantes que aqui desembarcaram no final do século 19, que brigam com os novos e luxuosos edifícios, que aprendi a viver. <br><br>Foi no Ipiranga que aprendi a trabalhar aos doze anos, e trabalhava com gosto, sem reclamar, pois sempre me senti mais viva trabalhando; aprendi a amar a escrever poesia, a bordar, pois naquela época maravilhosa dos anos 60 fazia parte do currículo das escolas administradas por freiras como o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e Nossa Senhora da Glória, também chamado de Seminário das Educandas. Ali professoras dedicadas marcaram a vida de muita gente, como a Dona Firmina, Dona Juventina, Dona Terezinha, Dona Elisa, que comandava os jogos de vôlei e queimada, quanta risada, quanta alegria quanta coisa boa. Que diferença a nossa vida naquela época da dos jovens de hoje, as responsabilidades nos eram imputadas e absorvidas sem qualquer problema. Lembro-me que aos 16 anos era caixa da Protin, uma fábrica de equipamentos Industriais de Proteção, lá na Rua Agostinho Gomes, 16 anos, uma criança num cargo desses lidando com altas somas e responsabilidades. Não sei se tudo dava certo pela vontade de trabalhar ou por ser uma brincadeira diferente. Enfim, naquela época era normal.<br><br>Com o Ipiranga ao fundo com aquele ar puro por causa das muitas árvores da região, misturado a fumaça das chaminés, que por lá brotavam desde o início do século XX, que conheci o amor da minha vida que, por incrível que possa parecer, nasceu no mesmo quarto do Hospital Leão XII, onde eu nasci, acho que já estava tudo escrito. <br><br>Eu morava na Rua dos Patriotas, que serviu de palco para nosso romance. Cabulei aula do Alexandre de Gusmão, pela primeira vez para poder sair com ele, que me levou no Cha Moom, lá no centro de São Paulo, e enquanto ele bebia um Gin Fizz, eu toda "carola" pedi um chá, que cafona! Enfim ele com 19 e eu com 17, tudo era permitido ao som do "White shade of pail" com Jonny Rivers, até tomar chá. Quanto namoramos pelas ruas desse bairro lindo, quantas noites estreladas foram testemunhas de nossas conversas, quantos bailes de garagem frequentamos ao som dos Beatles e Roberto Carlos (ainda sinto a mesma emoção ao lembrar dos bailes no Centro Independência), quanto nos escondemos dos meus pais que eram contra o namoro. <br><br>Era tudo tão seguro nessa época, andávamos pelas ruas à noite, estudávamos no Centro de São Paulo e voltávamos de ônibus, sem nos preocupar com drogas ou segurança, podíamos conversar na porta de casa (até as 22hrs como era tradição) sem apreensão com ladrões ou sequestro.<br><br>A primeira vez que ele me beijou em uma noite chuvosa, em baixo de um velho guarda-chuva posso jurar que ouvi todos os sinos das igrejas tocarem. Ah… Das igrejas da Região ainda são especiais a São José, nela minha avó era professora de catecismo desde a época dos anos 30, nessa tão tradicional matriz. A Nossa Senhora das Dores, moderna e despojada de adornos, foi pano de fundo para nosso casamento, após muita luta para podermos ficar juntos. Éramos tão simples, tão descomplicados, tão humildes. Apenas nos amávamos e lutávamos para ajudar nossos pais. <br><br>Minha família ainda mora no Ipiranga. Meu tio Mario faz parte da história do bairro, é amigo de todas as crianças das imediações da Rua Itapari, e com mais de 80 anos pratica natação todos os dias, 1500 metros lá na piscina do Clube Atlético Ipiranga, onde todos o conhecem e admiram. Minhas tias Cecília e Lourdes moram na Rua Marcondes de Andrade, próximo ao Museu e nada as tira de lá. Meu marido e eu estudamos, lutamos, trabalhamos, conhecemos o mundo. Viajamos muito a trabalho e até hoje, 40 anos depois, e sempre nos deparamos com uma esquina ou um edifício pelo mundo parecido com aqueles que marcaram nossa vida em São Paulo e no Ipiranga.<br><br>E-mail: [email protected]