Recordações do Jaçanã

Jaçanã, nasci, cresci e quero aqui ficar até o último suspiro desta minha vida. Quando estudei sua história no Ginásio, não acreditei que o bairro já foi terra indígena onde aves de mesmo nome habitavam de forma ordeira o que antes se chamava de Guapira, que deu origem ao Clube de Campo Guapira e à Avenida Guapira.

Lembro vagamente do hospital São Luiz Gonzaga onde se tratavam os leprosos e somente se podia entrar no bairro depois de minucioso exame médico. Guardo em minha mente cortejos fúnebres que seguiam a pé até o cemitério do bairro do Tremembé e o comércio parava por alguns minutos, baixavam suas portas em respeito aos mortos que seguiam para sua morada eterna.

Poucos devem se lembrar do acidente que ocorreu com o trenzinho do Jaçanã onde hoje é a Avenida Cabuçu. Cena triste onde perdi um tio adolescente o que fez com que meus avós vendessem imóveis situados na Avenida Guapira em razão da perda irreparável de um filho querido.

E do Tião Padeiro, que com sua carroça e buzina acordava a todos de madrugada com o cheiro de pão fresquinho. Tempo saudoso. A confiança era tanta que a quantidade de pão adquirido era marcada numa caderneta, e pagava-se no final do mês. Este Senhor, felizmente, ainda vive.

Com o passar do tempo o bairro foi se transformando e o que antes era vendido com uma carroça, passou a ser oferecido com uma Kombi, mas a buzina continuava chamando seus clientes. Eram mais de mil pães entregues diariamente de porta em porta no bairro do Jaçanã. Tião Padeiro, homem rude, rústico, mas com sua força de vontade de trabalho criou com dignidade seis filhos bem encaminhados na vida.

Não posso falar do bairro Jaçanã sem lembrar de Dona Francisca, a parteira espanhola. Quem morou no bairro se lembra muito bem que não havia médico no local e quem fazia o parto era Dona Francisca. Senhora que nos deixou saudades.

Na minha mente, além dos fatos narrados, me lembro dos eucaliptos que cercavam a rua que nos levava até o hospital São Luiz Gonzaga. Quem caminha entre a cidade de São Paulo e o Município de Guarulhos e passa pelo bairro do Jaçanã, não sabe que pisa em solo santo, que a família do médico Sebastião Laet mostrou com escavações a existência de fósseis indígenas no local.

Quem já ouviu falar na Rua Irmã Filomena, Irmã Emerenciana, entre tantas irmãs, sabiam que elas trabalhavam no Hospital São Luiz Gonzaga? Quanta história num só bairro para se escrever em tão curto espaço de tempo.

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