O isqueiro com chama de ouro

Quando eu era apenas um menino de 14 anos de idade, gostava de ficar conversando com o meu pai após o jantar. Na época, não tínhamos televisão. Só nos restava ouvir o velho rádio.

Assim, com as notícias do rádio, falávamos de vários assuntos… Meu pai contava-me fatos da Primeira Guerra Mundial, onde ele tinha lutado pela Itália contra a Alemanha. Falávamos sobre o Campeonato Mundial de Luta Livre, que estava acontecendo no ginásio do Pacaembu com grandes lutadores da época: o italiano Antonio Roca; o japonês Takeo Iano; o russo “Homem-Montanha”; e muitos outros lutadores. Falávamos também sobre o seu querido time do coração, o Palmeiras, havia sido campeão do mundo em 1950 (Taça Rio).

Às sextas-feiras, ouvíamos um programa que apresentava muita audiência, com o radialista, já falecido, José Rubens: “O crime não compensa”.

Como era gostoso, depois do jantar, ficar na sala ouvindo as histórias que meu pai contava…

Lembro-me bem de um caso interessante que aconteceu aqui em São Paulo. Um jovem, num domingo de carnaval, conheceu uma linda moça no salão de m baile; dançaram a noite toda e depois foi dormir com ela em um hotel. No raiar do dia, a levou para casa, mas como estava caindo uma forte chuva, o rapaz emprestou sua capa de chuva à garota e disse que voltaria para buscar a capa.

No dia seguinte, lá foi o garoto à casa da linda moça buscar a capa. Tocou a campainha e uma senhora atendeu. Contou toda a história e a senhora disse:
– Isso é impossível! Minha filha faleceu há 20 anos!
O jovem ficou chocado.
– Como?! – questionou – E onde eu posso encontrá-la?
– Ela está morta. Enterrada no cemitério da Rua Alameda Saudade, 113.

Impressionados com a história, os dois, o jovem e a senhora, foram ao cemitério. E lá estava a capa de chuva do rapaz, em cima do túmulo da moça. Dizem que o rapaz suicidou-se mais tarde.

Eu e meu pai conversávamos muito sobre vida após a morte. Em uma dessas conversas, ele disse: “Vamos fazer um combinado! Quem morrer primeiro deve vir para dizer se há ou não vida após a morte”. Então, aceitei o combinado.

Meu pai faleceu primeiro, assim como mandou a lei da natureza. Após muito tempo de sua morte, sonhei com meu pai; em sua mão havia um isqueiro com uma chama bem viva, cor de ouro (sinal de luz). E ele estava sorrindo. Sorrindo para mim.

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