No domingo, dia 22 de agosto de 2010, fui testemunha presencial, ocular, numa viagem de 6 km sobre as águas densas do nosso querido e histórico Rio Tietê. Rio este que fora abandonado com sua própria sorte, servindo de teste de recuperação por vários governantes através de uma empresa particular, a Arq!Bacana, com patrocínio da Trisoft e Senac-SP, de turismo arquitetônico e ecológico e de consciência ambiental, juntamente com uma centena de paulistanos de diversas idades, sexo e diversas profissões, prevalecendo os arquitetos, biólogos, designers e ambientalistas, paisagistas e urbanistas.<br><br>Este passeio era realizado em um barco, "Barco Almirante do Lago do Instituto Navega São Paulo”, com embarque na Ponte dos Remédios até a Ponte do Piqueri, em baixa velocidade, base de 5 km por hora num trajeto de 6 km na calha do Tietê.<br><br>Embarcamos num ônibus no Instituto Tomie Ohtake, que nos levou até as margens do rio sobre a Ponte dos Remédios. Muita expectativa de todos, apesar de diariamente passarmos a seu lado. Mas dentro dele, como seria o cheiro, a água vista abaixo de meus pés, as ondas? Sentia nas pessoas a admiração negativa ao ver as águas do Tietê.<br><br>O acesso ao barco nada digno de um porto, uma escadaria de madeira podre em meio a um canteiro de obra de manutenção de dragas, pedras e poeiras não interferiram na excelente viagem. Apenas o visual do local merecia um aspecto melhor, principalmente ao pensarmos no futuro como um hábito regional de viagens.<br><br>Todos a bordo! Mas antes de partir, uma palestra no andar inferior do barco com direito a ar-condicionado e data-show sobre o Rio Tietê; o monitor foi relatando seu passado e presente. Depois, no terceiro piso, todos a posto com filmadoras e máquinas fotográficas de diversos tipos.<br>Barco zarpando às 10h30 com retorno para as 14h, mais parecendo um quebra-gelos escuro. Cinza, quase preto, era a cor e a densidade da água. Bem, o barco era bem equipado em termos de segurança e conforto, bóias salva-vidas, monitores. <br><br>Por mais que tivéssemos a noção da poluição do rio através de fotos, filmes e da Marginal do Tietê, nada era comparado ao estar ali, dentro do próprio rio.<br><br>Na partida do barco, começamos a observar as ondas pesadas da água forrada de garrafas pet, roupas, brinquedos, bolas de todos os tipos, galhos, sacos plásticos. Até vimos um pé que parecia humano em meio às águas do Tietê! Será que era humano? Creio que seja de boneca, não?<br><br>E, assim, durante todo o trajeto, de vez em quando víamos uma garça que não tinha nada de graça, muito desfigurada das que conhecemos. Alguém disse que “devia ser a mutação”. Também observamos uns três quero-queros em meio ao pouco de capim que nascia no meio do concreto do rio. E próximo ao complexo de viadutos da Via Anhanguera, vimos uma capivara, até que gordinha; com certeza, outra nativa do rio. Todos se assustaram com um “Ooooooh!” quando a capivara mergulhou naquela água tão escura e cheia de lixos e desapareceu.<br><br>Mais à frente, perto da Ponte do Piqueri, vi algo que estava, até então, fazendo falta. Até achei estranho de não ter encontrado nenhum até aquele momento. Então, lá estava ele: um urubu.<br><br>Minha sorte foi que esse dia acabou por ser de veranico de 28ºC. Céu azul anil, com um sol fortíssimo. Era comum as pessoas reclamarem do odor. Era comum, inclusive, a preocupação de muitos em passar mal no local, como a minha, já que levei minha esposa e filha, futura bióloga. Mas nos previmos com acessórios para esse fim. Então, não tive preocupação nenhuma com o cheiro. Estava com uma constipação, nariz trancado, não senti cheiro de nada. Acho que nunca uma constipação foi tão bem-vinda. Assim, filmei e fotografei o rio à vontade.<br><br>Mas o intuito da viagem era também ver a cidade de São Paulo da calha do Tietê. Ver de dentro do rio como os primeiros exploradores, quando navegaram pelo Rio Pinheiros e entrando no Tietê, viram a cidade de São Paulo.<br><br>Naquele trecho vimos os prédios monumentais do bairro da Lapa, Vila Leopoldina, Vila Anastácio, Paulista; e do outro lado, Osasco, Pirituba, Casa Verde, Freguesia do Ó, Cachoeirinha e outros.<br><br>Durante a viagem, um filme ia passando pela nossa mente: tudo o que aprendemos nos bancos escolares sobre esse rio. Oh, Rio Tietê, que foi testemunha do progresso da cidade e do estado de São Paulo; foi berço da expansão do território nacional através dos bandeirantes que por ele seguiram estado a fora, com o projeto de entradas, bandeiras e monções. Rio Tietê, que nasce próximo à capital Paulista em Salesópolis e atravessa o estado todo e vai desaguar no Rio Paraná.<br><br>Pena que os construtores de uma cidade não respeitam os limites de um rio. Todos os governantes constroem estradas ao lado dos córregos e dos rios, acabando com a mata ciliar com sua permeabilização e, consequentemente, acabam com a fauna e flora e absorção da água da chuva e do próprio rio.<br><br>Nesse dia, o nível do rio estava baixo demais, o que deu para perceber ao passarmos por uma coluna de viaduto em que há uma régua de marcação do nível da água. Altura máxima do rio é de 6m, mas deu para notar que dá para chegar a oito metros, que é a altura da marginal e, assim, o rio começa a transbordar.<br><br>Acredito que se não fossem os esgotos das indústrias, moradias e dos córregos, o Tietê estaria quase vazio nessa época de seca.<br><br>Também nos chamou a atenção as pontes e viadutos vistos de baixo. Muito concreto, muita obra. Uma selva de pedra vista por baixo. Suas linhas arrojadas da arquitetura brasileira contrastando o velho e o novo perfil arquitetônico das pontes, viadutos e linha férrea.<br><br>Vale salientar que o rio parece um lago: não há correnteza naquele nível. Ao menos foi a impressão que ficou, mas devia ser tão pequena que não dava para observar. Só se nota em época de cheia.<br><br>Outra coisa que assusta são as bocas de descargas de todos os tamanhos como fenda na barranca de concreto do rio. Uns sem água, outros vomitando uma lavagem escura dos córregos em direção ao já sujo rio, apenas aumentando o volume de um quase chorume.<br><br>Que contraste vimos nesse domingo! Na sala de palestra, cartazes mostrando como era o rio até a metade do século XX, com seus clubes, suas marinas, seus barrancos floridos com a mata nativa e águas límpidas; o rio com suas curvas sinuosas, nadadores de diversos clubes disputando provas. Hoje, o asfalto tomou conta com seu trânsito.<br><br>Nesses cartazes do Rio Tietê antigo, muitos nadadores, onde um deles se destacava como o nadador João Havelange, que foi presidente do Fluminense do Rio de Janeiro e da FIFA. Tais cartazes também representavam as disputas de barcos, geralmente com saída e chegada na Ponte das Bandeiras, a ponte das duas torres de observação da Avenida Santos Dumont, Santana.<br><br>O percurso foi até a Ponte do Piqueri, onde foi dado o retorno do barco. A paisagem de retorno foi só a confirmação da sujeira do rio e, para não perder o costume, as piadas sobre o rio prevaleceram com bom humor; para quebrar um pouco da má impressão, teve um trompetista tocando seu instrumento para alegrar o ambiente e serviram um espumante muito bom, assim como água e refrigerante. Senti-me no Titanic do século XXI.<br><br>Enfim, foi uma viagem rica em informação, com a confirmação do que já sabíamos: a sujeira é impressionante e as providências terão que ser tomadas com urgência para aliviar esse problema.<br><br>Para tornar a viagem mais real, apesar de ser domingo, o trânsito de ambos os lados do rio apresentava-se congestionado. Operários a trabalhar nas margens do rio, cena típica de um dia normal de trabalho, e os transeuntes que passavam pela marginal achavam estranho aquele barco navegando com aquele pessoal. Uns gritavam, outros riam, outros falavam algo inaudível; enfim, achavam que éramos um bando de loucos, sem saber que ali estavam pessoas que pensavam no ecológico, no urbano, na racionalidade de uso do solo, das águas do meio ambiente.<br><br>Quanta utilidade seria para a cidade esse rio, assim como o Rio Pinheiros, se esses dois fossem totalmente limpos; sem contar com o turismo, as pescas, as competições e até transporte por eles.<br><br>A outra importância vital para a cidade é que existe o que chamamos de controle de vazão. O Rio Pinheiros, que se encontra no mesmo estado do Tietê em termos de poluição, possui um lindo jardim às suas margens, ocultando o mau cheiro.<br><br>O Rio Pinheiros é um rio que tem dois sentidos devido às usinas elevatórias no seu intermédio e na barranca da Represa Billings. Ele pode abastecer a represa Billings, que por sua vez alimenta a Usina de Henry Borden, em Cubatão, como já fez outrora, mas parou devido ao excesso de poluente.<br><br>No caso de cheia na Billings e na Represa Guarapirang, as comportas se abrem e alimentam o Rio Pinheiros que, por sua vez, alimenta o Tietê. Tudo isso começou em 1900, com o represamento da Guarapiranga, e depois vieram as comportas elevatórias e creio que a mais recente obra foi a interligação das duas represas por dutos.<br><br>Neste ano de 2010, estão revitalizando as margens da Guarapiranga com cinco grandes parques, com o intuito de reaver o turismo na região como era nas décadas de 30 a 50, quando ainda não havia os parques da cidade.<br><br>E para a alegria dos santoamarenses, mais precisamente os socorrenses da Capela do Socorro, está retornando ao seu local de origem o monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico em 1927, por Francesco De Pinedo; monumento que foi sequestrado em 1986 pelo então prefeito de São Paulo, Sr. Janio Quadros, na calada da noite, e transplantado na praça Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins, local nada a ver com a história. E hoje, em agosto de 2010, ele voltou, voltou para ficar no berço da Represa de Guarapiranga, onde, além de embelezar e trazer cultura à nossa região, fiscalizará a represa com sua imponência, lembrando o sonho de Ícaro com sua Vitória Alada em bronze.<br><br>Voltando ao rio. Quando chove em excesso na cabeceira do Tietê e ou Tamaduateí, o Rio Pinheiros alivia esses rios levando água para a Billings, e essa, dependendo do nível, manda para a baixada santista, para a usina hidroelétrica ou até como vazante para os rios da região.<br>O único problema para todos são as chuvas torrenciais gerais em todo estado, inclusive na baixada santista (no caso, o Rio Cubatão e outros). Aí não tem para onde mandar água, mas creio que é um caso raro.<br><br>E o mais importante: a Represa de Guarapiranga e a Billings são as nossas caixas d'água mais preciosas, principalmente com a interligação das duas feitas há uns dez anos atrás.<br><br>Por tudo isso e muito mais que temos que sempre alertar as autoridades para esse assunto de despoluição e assumirmos o papel de fiscal de nós mesmos e dos outros através de uma orientação em comum de toda comunidade.<br><br>Salve o rio Tietê, o rio da integração paulista e paulistana.<br><br>E-mail: [email protected]