Pai, o que é mar?

Eu tinha quatro anos quando vi o mar pela primeira vez. Era o ano de 1944 e o mundo estava virado de cabeça para baixo por causa da Segunda Guerra Mundial.<br><br>Naquela época, meu pai começou a trabalhar no Palácio dos Campos Elísios como telegrafista e fazia alguns bicos como rádio-escuta para alguns jornais e rádios. Tínhamos um receptor de rádio muito potente, um Pilot de 6 válvulas e alta seletividade para ondas curtas. Meu pai passava boa parte da madrugada, fones nos ouvidos, ouvindo a BBC, a Voz da América e outras fontes de notícias, assim, aumentando um pouco seu salário de funcionário público, dando-nos um pouco mais de qualidade de vida em plena época de racionamento.<br><br>Um dia, meu pai ouviu uma mensagem em Morse e reconheceu o "sotaque" do operador. Era o ritmo telegráfico de seu padrinho de casamento, o MP (Manoel Pereira), de quem não tinha notícias desde 1939. Explico: os telegrafistas têm, cada um, seu próprio ritmo, uma espécie de "sotaque" que, para eles, é como se reconhecessem a voz de uma pessoa em particular. Evidente que para isso é preciso ter um ouvido apuradíssimo, mas isso não vem ao caso, nosso assunto é outro.<br><br>Só sei que meu pai acabou mantendo contato com o MP que estava trabalhando em Itanhaem, na Delegacia de Polícia. Resolveu, então, que iria visitar seu padrinho e amigo de trincheira durante a Revolução de 1932, e, melhor, me levaria com ele.<br><br>Naqueles tempos de guerra, para se viajar, mesmo dentro do Estado, necessitava-se de um documento, o "Salvo-Conduto", que deveria ser requerido em um Departamento da polícia política, departamento esse que ficava em um velho galpão no Largo Gal. Osório, coincidentemente ao lado do prédio onde, 50 anos depois, funcionaria o malfadado DOPS com seus torturadores encapuzados.<br><br>De posse da tal carteira, era um sábado, fomos para Santos num trem da São Paulo Railway e, em Santos, embarcamos em um outro trem (da Sorocabana?) rumo a Itanhaem. Lembro-me de índios subindo nos vagões para vender cachos de banana e palmito. Lembro-me, também, de ter feito um escândalo sem tamanho por querer que meu pai comprasse um arco e flechas que também eram vendidos. Só parei de chorar e espernear quando meu pai virou minha cabeça para a janela do vagão e disse: "Inácio, olha lá! Aquilo é o mar".<br><br>Estou prestes a completar meus "setentanos", tenho casa na praia, desço a serra com minha mãe de 89 anos, minha esposa, meus netos e minha cachorrinha, a Mulan. Meus filhos, vez ou outra, quando lhes sobra tempo, viajam conosco ou usam a casa para descansar e dar uns mergulhos.<br><br>Para mim, um "nêgo véio" semi-septuagenário e aposentado, ver o mar, pisar na areia, queixar-me do sol ou da chuva, da água fria ou da praia suja, como dizem os jovens de hoje, "faz parte", mas nada me emociona mais do que atravessar os trilhos abandonados da ferrovia que vai de Santos até Itanhaem e Peruibe e, lá no fundo de meus pensamentos, vinda sei lá de onde, ouvir a voz de meu pai: “Inácio, aquilo é o mar”…<br><br>E-mail: [email protected]