Cartas de amor

Cartas de amor… Costumes que desapareceram…<br><br>Não, não vou falar daqueles livrinhos que eram vendidos na Praça da Sé e na Rua Direita. Aqueles intitulados "As mais lindas cartas de Amor", ou "Cartas do Coração". Nem vou falar daquele rapaz que ao tempo da construção do Metrô Sé, ficava ali, próximo à Caixa Econômica vendendo, conjuntamente com a Literatura de Cordel, os tais livrinhos. E nem vou contar que esse rapaz também escrevia cartas de amor e cartas familiares para os migrantes nordestinos analfabetos que trabalhavam na construção do Metrô.<br><br>Vou falar sim, sobre o ritual dessas "linhas mal traçadas" que se transformavam em cartas de amor.<br><br>E tudo começa com a história mais velha do mundo: O rapaz vê a garota. A garota vê o rapaz. E sentem um "não sei o que" que queima por dentro. "Uma coisa" que os fazem perder o apetite e os fazem sonhar acordado. De repente, descobrem que estão sofrendo de "paixonite aguda". E à distância, começam a "cercar" um ao outro. À distância, um sorriso e a ousadia de um aceno. Aceno correspondido. É aqui que começam os tímidos bilhetinhos deixados sob a porta do ser amado. Se o ser amado respondesse, começavam as cartas que, com a evolução do relacionamento, transformavam-se em longas epístolas… E os "Amorini" (Cupidos), mensageiros de Vênus, entravam em ação.<br><br>E eu fui um Cupido… <br><br>Eu, conivente, comparsa, cúmplice e Cupido do meu tio, incontáveis vezes deixei bilhetinhos sob à porta da V…, sempre à mesma hora, lá na Rua Ipanema. E nada!<br><br>Até que um dia, ao colocar o bilhete, V…, abrindo a porta de surpresa, pediu que eu esperasse. Espero e volto para casa com a tão desejada resposta. Titio explodiu de tanta alegria. Então começou a extensa correspondência entre os "pombinhos". E o Cupido aqui não teve mais sossego.<br><br>Se eu estava brincando, tio Amedeo chamava: "Vieni, Ciccio!". E lá ia eu levar mais uma carta para V… Se eu estava fazendo a lição, tocavam a campainha. Era uma amiga de V… pedindo que eu fosse buscar "um recadinho para o meu tio"… Eu já estava ficando "scuglionatto" (de saco cheio) com essas idas e vindas. O que valeu desse período é que o Cupido aqui não vivia somente de volitar loucamente entre a Rua Guarapuava e a Rua Ipanema. Eu fui iniciado nos mistérios das cartas de amor…<br><br>Depois de receber o bilhete de V… em reposta aos tantos que ele lhe escrevera, meu tio me diz: "Siediti e attendi! E stai zitto!" (Senta-te e espera! E fique calado!). Esperar eu espero. Mas ficar calado… Difícil! Titio senta-se à escrivaninha, separa um envelope e escolhe um papel de carta. Enche a caneta com tinta verde e começa a escrever. Não resisto e quebro o silêncio: "Zi, a'ppeché chista in verde?" (Tio, por que está escrevendo a carta com tinta verde?). Ele respondeu: "Fica quietinho. Assim que eu terminar de escrever eu te explico”.<br><br>"Zio" Amedeo terminou de escrever, passou mata-borrão sobre a folha e começou a explicar-me tudo sobre o ritual das cartas de amor. Levou quase uma hora e meia. Depois, dobrou cuidadosamente a carta, colocou no envelope e pediu-me que levasse a dita às mãos da sua amada.<br><br>E, para explicar tais mistérios e rituais, narro a própria trajetória das missivas de Amedeo para V…<br><br>A resposta aos bilhetinhos do meu tio significava que V… interessava-se por ele. Então começam as, ora curtas, ora longas, cartas escritas com tinta verde. O verde significava a esperança de ser aceito como namorado. E foram muitas as cartas verdes até que V… o convidou a ir à sua casa e conversar com ela. Titio foi. E conversou muito – ele na calçada, ela à janela – até as nove da noite.<br><br>Então começaram as cartas escritas em azul-claro, significando a alegria e a felicidade de estar compartilhado os momentos com a pessoa amada. A certeza de que "aquele amor era para sempre"… Versos, odes, poemetos de terceiros eram inseridos; frases melosas e pensamentos profundos sobre amor. Tudo era válido. E valeu. V… e Amedeo começaram a namorar – às terças e quintas-feiras no portão (ou melhor, na porta. É que a porta da casa dela dava direto na calçada).<br><br>E o namoro ia de "vento em popa". Vez ou outra, o tio Amedeo era convidado a entrar e tomar um cafezinho. E vez ou outra, nos fins de semana podiam sair juntos, com os amigos, para um passeio pela Rua da Mooca ou pela Avenida Celso Garcia. Mais ia bem o namoro, mais as cartas em azul-claro proliferavam. E, volta e meia, entre elas, surgiam algumas escritas em azul escuro, significando insegurança, dúvidas, desejo de estar sempre com a pessoa amada.<br><br>E o Cupido aqui, se "lascando". Até que V…, em férias, foi passar um mês em Santos, hospedando-se em uma pensão da Avenida Ana Costa. E a "cupidagem" passou a ser feita pelos Correios.<br><br>Surgem então, as cartas escritas com tinta sépia, significando saudade e falando de solidão, ausência e do "vazio que resta". Cartas em sépia entremeadas de cartas escritas com tinta preta significando e revelando todo o ciúme, receio de traições; impregnadas com reclamos de abandono e acusações de insensibilidade. Nessas cartas, meu tio deixava de ser Amedeo e transformava-se em Othelo.<br><br>V… voltou das férias com o nariz empinado, olhando para o meu "zio" com cara de ofendida. Começam de novo as cartas em verde: esperanças de perdão e de reconciliação. Passa o tempo e o Cupido aqui se vê novamente envolto em azul-claro e azul-escuro. E continuava a não entender o porquê de tantas cartas. Não estavam namorando? Não se falavam quase sempre? Não moravam a poucas quadras um do outro? Então, por que as coisas estavam assim, "Dio mio"?<br><br>E o Cupido aqui um dia começou a entender porque nunca entregara aquelas cartas escritas com tinta roxa, que significavam paixão, desejo, posse. Cartas que falavam de "Lábios carnudos entreabertos à espera de beijos ardentes e lascivos…" e em "Corpos suados, exauridos, abraçados, entregues a Morfeu…".<br><br>Cartas roxas que, a princípio, traziam também palavras escritas em verde, denunciando esperança, por um contato mais sensual… Mais sexual. Sabia da existência delas porque via meu tio as escrevendo. Sabia do conteúdo porque o lia, seja num momento de descuido do "Zio", ou por cima dos ombros dele. Cartas que ele entregava pessoalmente, às escondidas e apressadamente para a V… Cartas que cupido nenhum podia entregar.<br><br>E eu, como cupido, continuei a volitar incessantemente. Até que, certo dia, voltando cansadíssimo da escola, – "carregando um bonde nas costas" – viro a esquina e dou de cara com meu tio e os "amicci". A "coisa tava feia". Falavam todos ao mesmo tempo, gritavam. Titio gritava mais alto ainda. Fui-me aproximando e o que consegui ouvir nitidamente entre os tantos palavrões, foram as palavras "porca femmena" (Vagabunda) e "troia" (prostituta da mais baixa categoria). E ouvi a frase do Pierino, com sua voz de barítono, falando sobre "duas protuberâncias na testa do meu tio”.<br><br>Que protuberâncias?! Assustado, entrei no meio deles e, para alívio meu, não vi nada na testa do meu tio.<br><br>Assim que o "Zio" me viu, meteu a mão no meu pescoço, como fosse uma canga, e disse aos amigos: "Agora começa a minha vingança!". Empurra-me dizendo: "A'ccasa, bello! Ne ho un lavorino porco da far." (Para casa, belo! Tenho um trabalhinho porco a fazer.)<br><br>Enquanto caminhávamos, titio contou-me que os amigos dele tinham visto a V… na maior intimidade com um operário da Alpargatas. E ele foi lá, junto com os amigos, constatar. Escondido ele viu a V… "jugá us peito in cima du rapaiz, si isfregá neli i trocá uns beijinho." Ficou possesso e saiu de lá disposto a se vingar. E a vingança estaria na esperada carta que, todos os dias, à mesma hora, ele enviava para a desavergonhada. Seria um tiro "à queima-roupa"!<br><br>Em casa, tio Amedeo entra no quarto e senta-se à escrivaninha. Pega um envelope e escreve com a tinta cor azul claro o nome de V…, bem grande e em arabescos. No verso, escreve "Tuo" (Teu). Depois, pegou outra caneta e escolheu um tinteiro. Este estava vazio. Levantou-se da cadeira e, sem-cerimônia, abriu a minha mala, invadindo a minha privacidade. De dentro dela retirou um caderno espiral e arrancou uma folha em branco, abriu minha caixa de lápis de cor e retirou o vermelho. Voltou a sentar-se e a escrever.<br><br>Curiosíssimo, eu procurava entender o que acontecia. Tínhamos tantos papéis de cartas e o "Zio" estava escrevendo numa folha de caderno, sem se importar em tirar as rebarbas e, em vez da caneta, escrevia com o lápis vermelho.<br><br>Aproximei-me do meu tio – dava para sentir o calor da raiva que emanava do seu corpo. E sobre os ombros dele, li o enunciado da carta: "Caríssima monte de bosta" e, no parágrafo abaixo: "Sabendo da sua fama de cadela vadia, fama que me foi revelada por muita gente honesta desta nossa região, dou por terminado o nosso relacionamento"…<br><br>Parei de ler. Conhecendo o titio, eu antevia as barbaridades que ele iria escrever. Poucos minutos depois, ele suspira profundamente e diz: "Está feito!" Eu aproveito o momento e pergunto: "Zio", você escreveu em vermelho para demonstrar a sua raiva?<br><br>- Nò – responde ele – Escrevi in vermelho porque io to mandando a V… à merda! Num ti contei isso? Nò? Pois é assim. Tanto em cartas de amor, ou nas comuns, se você escrever em vermelho e em papel vagabundo, você estará mandando a pessoa a merda!<br><br>Não deu para segurar a gargalhada. Quase rolei ao chão de tanto rir.<br><br>O "Zio" olha para mim, dá uma piscada e continua: "Agora só falta assinar a ‘lettera’ (carta)." Enfia o dedo no nariz, tira uma grande "cacca" e a pressiona contra a folha de papel, no lugar da assinatura.<br><br>E o Cupido aqui, volitou até a Rua Ipanema e entregou "em mãos" o envelope contendo a carta escrita em vermelho e timbrada com o "cagalhão" nasal do meu tio. Eu estava feliz com a "vendetta", feliz com o fim do namoro. Feliz por que voltaria à minha velha condição de "scugnizzo" (moleque de rua).<br><br>Por conta dos "amicci" do titio, a moral de V… foi parar na sarjeta. Ficou "mais suja do que pau de galinheiro". E o "Zio" ficou intratável por uns dias. Jurando por todos os Santos nunca mais se apaixonar. Por uns dias…<br><br>Voltava da escola e titio esperava-me na esquina. Olhos brilhantes, um sorriso de orelha a orelha. E foi logo me dizendo: "Ciccio, preciso de um favorzinho. Leva esse bilhetinho para a N…, lá na Rua Visconde de Laguna e ‘infia dibaxo’ da porta dela. Deixa que eu levo a sua mala para dentro. Vai logo, vai!".<br><br>E eu, Cupido, olhos lacrimejantes de raiva, volitando pela Rua do Hipódromo, em direção à Rua dos Trilhos e em direção à Visconde. Vou ruminando todos os palavrões do mundo. "Cazzo! Chist' nu' finì'mmai!" (C…! Isto não acaba nunca!)<br><br>Mas… acabou! Acabou quando o "bello" Amedeo conheceu a "Zia" Luisa. Titia "cortou-lhe as asas" e depenou o Cupido aqui… Bendita tia Luisa!<br><br>E-mail: [email protected]