O quintal da Véia Dita

Nasci e fui criado nas periferias de nossa São Paulo, e essa história se passou na antiga Rua Ouro Fino, na Vila Libanesa em Ermelino Matarazzo. Era ali que ficava a chácara da Dona Benedita ou "Véia Dita", como a molecada a chamava. Seu quintal era enorme, cheio de flores e árvores frutíferas, e não havia um garoto da rua sequer que não ficasse tentado a entrar ali e roubar as frutas de seu pomar.<br><br>Mas havia muitas histórias que contavam a respeito da velha. Diziam que seu quintal estava cheio de armadilhas, que a velha era uma bruxa e que escondia as crianças que entravam lá… E tudo o mais que a imaginação infantil era capaz de criar.<br><br>Porém, de todos os meus amigos que já tentaram roubar a velha, o que tinha mais histórias para contar era o “Alemão”. Entretanto, eu não acreditava em uma só palavra que o Alemão dizia; ele mentia demais. Em nossas reuniões, ele dizia: "Se algum dia vocês resolverem entrar ali, não se esqueçam de levar dois pedaços de pão para enganar o cachorro; um pedaço para enganar quando entrassem e outro para enganar quando saíssem!”.<br><br>Certo dia, acordei determinado a tirar esta história a limpo: eu mesmo iria entrar no quintal da “Véia Dita” e mostrar que eles eram todos uns bocós, covardes e mentirosos. Tinha certeza que a velha não era do jeito que nenhum deles me contava. Tomei o meu café e chispei para rua.<br><br>A chácara não era longe de casa, andei uns cinco minutos e lá estava ela, com seus muros altos, as bananeiras, pinheiro e flores passando por sobre o muro e seu enorme portão de madeira pintado de azul, todo desbotado pelo tempo e pela chuva. Segundo o Alemão, a melhor maneira de se entrar no quintal da velha era pular o rio e passar pelo bambuzal que ficava nos fundos do quintal.<br><br>Em poucos minutos, lá estava eu, andando cuidadosamente sobre as pedras lisas e pontiagudas. Era um rio raso, suas águas limpas e cristalinas mal chegavam até as canelas (hoje existe uma avenida que leva o seu nome, a Avenida Tiquatira). Passei pelo rio e cheguei ao bambuzal, dei uma olhada ao redor e corri agachado, escondendo-me atrás de uma moita de babosa. Meu coração começou a bater mais rápido e mais forte, minha respiração acelerou, meus sentidos se aguçaram: eu estava dentro do quintal da velha.<br><br>Lá estava a velha, estendendo roupas no varal, como um tigre que espreita sua presa. Eu estava imóvel atrás da moita, alerta a qualquer barulho ou movimento e pronto para fugir. Seus cabelos tingidos de preto retintos, parecendo um cacho de abelhas, seu corpo enorme em forma de barril e suas canelas finas davam à dona Dita uma aparência engraçada. Ela parecia com os bonequinhos de batatas que eu costumava fazer. Bem, admito que suas características batiam com as histórias do Alemão.<br><br>De repente, o cachorro da velha me viu. Era um vira-lata cor de café com leite, as patas todas sujas de barro. Ele correu em minha direção, rosnando e latindo. Ainda bem que por via das dúvidas eu trazia comigo dois pedaços de pães, conforme o alemão recomendara. Quando o cachorro chegou mais perto, peguei o pão e comecei a fingir que comia. O cão ficou parado olhando para mim abanando o rabo vagarosamente e com olhar desconfiado, dei um pedaço de pão para ele e depois mais outro. Pronto, o problema do cachorro estava resolvido. Mas para onde eu ia, o cão me seguia, querendo ganhar mais pão!<br><br>Eu estava quase atrás da casa da velha e ainda não tinha sido visto. Já começava a ter certeza de que todas as histórias contadas a respeito da velha eram tudo balelas. A pobre senhora era uma coitada, estava fácil demais! Mas eu não podia facilitar, todo cuidado era pouco e qualquer descuido poderia por em risco toda a operação.<br><br>Faltavam uns trinta metros até eu chegar à mangueira. O perfume das mangas maduras enchia o ar. Bem debaixo dela havia uma pilha de telhas, mas ela não ia me atrapalhar de subir no pé… Suas enormes forquilhas em forma de "Y" facilitariam a minha subida. Eu já estava me imaginando em cima da árvore comendo até me arrebentar; seria o herói da turma, ninguém até a tal data havia conseguido enganar a velha. Faltavam uns cinco metros, comecei a pensar em como seria divertido a velha me ver em meu caminho de volta… Pensando bem, eu até a chamaria, ela jamais me alcançaria na corrida. Minha vitória seria triunfante!<br><br>Voltei à realidade, eu já podia sentir o gosto daquelas deliciosas mangas… Minha boca se encheu de água, mais dois metros e eu iria conseguir! Quando, de repente, a velha saltou de trás da pilha de telhas, como que impulsionada por uma mola. "Agora te peguei, moleque!", gritou dona Dita, com aquele seu corpo enorme e uma espingarda na mão, apontando em minha direção. O susto que levei foi tão grande que eu estava parado e caí sentado; meus olhos quase saltaram das órbitas; senti que meu coração iria sair pela boca. Pelas barbas de Judas, como aquela velha havia chegado ali sem que eu a visse?!<br><br>Sem conseguir falar nada, comecei a chorar desesperadamente. A medida que a velha se aproximava apontando a arma para a minha cabeça, eu ia me arrastando para trás sentado no chão.Agora o bandido do cachorro se voltara contra mim, latia incessantemente e arrancou o tênis de um dos meus pés com uma mordida, saindo correndo, deixando-me somente com um pé de sapato.<br><br>"Levanta e corre, moleque", gritou a velha, “Levanta e corre, que eu não gosto de acertar ninguém parado!". Sem pensar duas vezes, levantei-me num salto e corri o mais rápido que pude, fazendo zigue-zague para a velha não me acertar. Eu só escutava o barulho dos tiros atrás de mim.<br><br>A distância que eu levara meia hora para fazer, eu a transpus em segundos. Passei pelo bambuzal e saltei dentro do rio. Continuei correndo até chegar à minha casa, abri o portão desesperadamente e sentei-me em um degrau da escada para retomar o fôlego. A minha irmã que ouviu o tremendo barulho que eu fiz ao abrir o portão, saiu para ver o que estava acontecendo. “O que houve com você?”, perguntou ela, me olhando assustada, com os olhos arregalados.<br><br>A medida que o fôlego ia voltando e a adrenalina ia baixando, comecei a sentir os efeitos de minha aventura fracassada. Em minha fuga, eu estava tão desesperado que nem olhava por aonde ia, tudo o que eu desejava era sair dali. Passei por canaviais, roseiras, trepadeiras e mandacarus, enchendo meu corpo de farpas e espinhos; e na hora que saltei dentro do rio, fiz um enorme corte no pé e nem havia percebido. Minha irmã encheu meu ferimento no pé com pó de café e o enrolou nele um pedaço de lençol velho, e ficou quase uma hora retirando os espinhos de meu corpo.<br><br>Daí, há uma semana eu já estava pronto para outra. Mas eu nunca mais duvidei de nenhuma das histórias do Alemão.<br><br>E-mail: [email protected]