Memórias Sessentistas

Anos 60, eu estava no auge da minha curtição de boemia. As noites eram todas muito bem aproveitadas e os dias, mesmo quando totalmente estafado, eram de muito trabalho. Fui educado pelo Sr. Alfredo e por D. Terezinha que o trabalho é sagrado e não aceita negligências. Então, por mais que o retorno à casa, todas as noites, viesse ocorrer depois das quatro horas da matina, às sete eu tinha de estar desperto para dar continuidade à labuta do dia a dia.

Para melhor adaptação da minha vida agitada, busquei trabalhar com algo que me desse espaço para alguns momentos de descanso ao longo do expediente. Assim, candidatei-me e fui aceito na firma Auto Asbestos (Baterias Durex), cujos escritórios estavam localizados na Rua Dr. Ricardo Batista (Bixiga City) a uma quadra e meia do 307 da Rua Major Diogo, onde eu residia. Fui admitido no setor de Crédito e Cobrança para exercer as funções de "informante". Assim, no inicio do expediente, recebia, juntamente com o Oswaldinho, outro informante do setor, as fichas a serem preenchidas com informações comercias.

Saíamos, então, para desempenhar nossas tarefas. Lógico que, rapidamente, aprendi os macetes do cargo. Então, de posse das fichas, fazia um tour pela cidade visitando empresas tais como Mesbla, Isnard, Banco do Brasil, Sanbra e outras que se prestavam a atender os coitados dos informantes comerciais. Com elas deixava as fichas de pesquisa para serem preenchidas e devolvidas no dia seguinte e retirava as fichas deixadas no dia anterior.

Pronto, antes das onze horas da manhã minha tarefa principal estava concluída. Cônscio do dever cumprido voltava para casa, onde depois de almoçar eu me deixava cair no sofá da sala e me permitia tirar uma soneca de 2 ou 3 horas e assim, recuperava minhas forças para as atividades boêmias. Por volta das 17 horas, saía de casa e com a maior cara de pau, aparentando o maior cansaço, entrava nos escritórios para entregar o resultado do dia anterior. Fazia algumas coisinhas por ali e às 18h voltava para casa, descansava a carcaça por mais umas duas horinhas, levantava, tomava banho e depois de vestido e perfumado, com algumas borrifadas do velho Lancaster argentino, voltava para minhas atividades noturnas nos cabarés e inferninhos da Boca do Lixo.

Quando me demiti da Auto Asbestos, fui trabalhar no setor comercial da Armações de Aço Probel, instalado no primeiro andar do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Ali, já totalmente tarimbado, continuei a desempenhar a mesma rotina anteriormente praticada na Auto Asbestos. Ao lado da Probel, no mesmo Conjunto Nacional, estavam instalados os Salões de Festas do Fasano onde, nas temporadas de bailes de formatura, eu frequentava quase todas as noites. Por ser obrigatório o uso de trajes a rigor nesses bailes, todas as manhãs eu entrava na empresa totalmente trajado com as roupas do baile e só as ia desvestir quando da minha saída para buscar informações. Era o funcionário mais bem trajado da empresa. Foram tempos de muita alegria e danças.

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