Cambuci

Embora não tenha a mesma habilidade no manuseio das palavras como o Grassi, também guardo enorme nostalgia do meu querido bairro do Cambuci, onde nasci, em casa, pelas mãos de uma parteira no longínquo 1939, na esquina da Barão de Jaguara com Cesário Ramalho.

Lembro-me que nessa mesma esquina havia três estabelecimentos emblemáticos, das décadas de 40 e 50. Numa, o armazém de secos e molhados do "seu Caetano", italiano, em que enormes barris continham azeitonas pretas e verdes – importadas da Itália, dizia orgulhosamente "seu Caetano".

Arroz, feijão, milho, batata, na outra esquina, a mercearia e fábrica de linguiça, do também italiano Menegon, onde minha mãe comprava a "verdadeira mortadela importada" que, dizia-se na época, de carne de cavalo, e na outra esquina a barbearia com as três portas envidraçadas e com enormes espelhos de vidro. Ao serem atendidos pelo seu Emilio, um simpático português, os fregueses viam refletidas suas circunspectas imagens, com indefectíveis bigodes, usados talvez para valerem suas palavras.

Na Rua Cesário Ramalho ficava a garagem da CMTC – Cia. Municipal de Transportes Coletivos, cujos ônibus ficavam estacionados ao longo da mesma rua e da Rua dos Alpes. Eu e os moleques da rua divertíamo-nos em apertar e largar o botão de partida, acionando o motor dos veículos.

Em frente à garagem ficava a carvoaria do japonês e virou e mexeu minha mãe dizia “Raul, vai no japonês e diz pra ele trazer um saco de carvão", para alimentar o velho fogão Dako. Ao lado da carvoaria ficava a casa da dona Leonor, enfermeira que aplicava injeções em domicílio e, várias vezes, tenho fresco na memória, lembro-me dela no umbral da porta com sua faiscante agulha da seringa, dirigindo-se a mim, na cama, para me furar as nádegas.

O mesmo pastor de cabras a que se refere o Grassi, milhares de vezes, passou em frente à minha casa com dezenas delas e meu irmão tomou ‘hectolitros’ de leite de cabra tirado na hora; o único que, enquanto bebê, aceitava. O vendedor de pinhão quente, que todas as tardes subia a Barão em direção ao Largo do Cambuci com seu pregão, que aos meus ouvidos de criança soava algo parecido com "minhonquem" e que minha mãe me esclarecia: "pinhão quente", Raul”!

O jornaleiro que toda manhã passava, com um enorme volume a tiracolo, preso a uma espécie de cinta ao redor do pescoço que inclinado para a direita carregava, com visível esforço, dezenas de jornais e revistas, anunciando a grande revista da época, a "Grande Hotel", com grande estardalhaço apregoava os nomes dos artistas das rádionovelas e cantores da época.
Os grandes cavalos, com enormes patas cabeludas, que tracionavam os carroções da cervejaria Antarctica, deixavam nas portas dos fregueses enormes blocos de gelo que minha mãe carregava, com grande esforço e, após parti-los, colocava na parte superior da "geladeira".

Geladeira: um móvel de madeira com o interior revestido de folhas de “flandres- zinco”, cuja parte superior se abria como um alçapão, no qual minha mãe colocava o gelo partido para que o frio fosse distribuído por todo o móvel. Várias vezes “choquei” os carroções de lixo tracionados por duas parelhas de cavalo que vagarosamente desciam a Rua Barão de Jaguará, recolhendo as latas de lixo de porta em porta.

Para quem não sabe, “chocar”, no caso, é pendurar-se na traseira do veículo e andar de carona até determinado ponto. São fatos tatuados em meu cérebro, cuja lembrança sempre vem à tona quando ouço o nome Cambuci. Tenho certeza que o Grassi pensa da mesma forma.

Um grande abraço a todos que como eu gozaram esses maravilhosos anos das décadas de 40 e 50, no meu querido Cambuci e na minha amada São Paulo.

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