Loteria esportiva

No ano de 1969, o Presidente da República – Artur Costa e Silva – assinou o decreto que instituía a loteria esportiva, e ele, que sempre foi vidrado em jogo, ao entregar a caneta para o chefe do cerimonial disse: ¬_ “Agora o povo terá uma grande chance de ficar rico.”<br>Para entrar em funcionamento, a loteria esportiva demorou um pouco, teve que ser regulamentada e seria administrada pela Caixa Econômica Federal, que tinha que arregimentar lotéricos credenciados para receber as apostas. E por perto da copa do mundo de 1970, creio que mês de maio, ela começou a fazer os primeiros testes.<br><br>A princípio, pouca gente estava a par do seu funcionamento. Pegava-se um volante com nomes de clubes e fazia-se um “X” à frente dos nomes dos clubes; em caso de empate, o “X” era feito no meio. O que foi denominado de coluna 1, coluna do meio e coluna 2.<br>Tinha gente que ficava irritada quando via os funcionários de casas lotéricas colocarem uma ficha retangular dentro de uma caixinha de madeira, e com um punção fazer furinhos naquela cartolina; um pouco demorado. Muita gente achava que aquele negócio não ia dar certo.<br><br>Um colega de trabalho me perguntou como funcionava esse negócio de loteria esportiva. Disse-lhe que era apenas preencher o volante à frente dos times que iam ganhar e na coluna do meio em caso de empate. “Não precisa colocar o resultado do jogo?”, perguntou ele. Ao saber que não ele disse: “Então é baba.”<br><br>No bolão do campeonato paulista eu acerto o resultado de sete dos dez jogos. A coisa começou a pegar mesmo quando uma senhora do Bixiga acertou os 13 pontos num dos primeiros testes, o que lhe rendeu um milhão de cruzeiros novos, que correspondia a um bilhão de cruzeiros antigos que, apesar de já estarmos a três anos da mudança da moeda, cortando os três últimos zeros ainda tinha muita gente que fazia tal comparação.<br><br>O jornal da tarde fez uma entrevista com ela, que estava radiante contando que aquela fortuna ela devia ao Pelé, porque nos últimos instantes marcou o gol que ela precisava para fazer o décimo terceiro ponto. Só sei que não demorou muito para a loteria esportiva virar uma febre nacional. <br><br>O jogo começava a ser feito na segunda-feira e terminava na quinta às 22h. Nesse dia as filas eram enormes. Na sexta-feira aquelas cartolinas, todas perfuradas, iam para o computador, para que no sábado ficássemos sabendo do rateio oficial do teste. O valor do prêmio normalmente girava em torno dos dez milhões de cruzeiros. Era uma loucura, tudo mudou na vida do brasileiro. As pessoas viajavam no virtual. Se eu ganhar mando o meu patrão à “P Q P”, dizia a maioria. Outros diziam que a primeira coisa que iam fazer era trocar de mulher. De preferência, trocar a dele de 50, por duas de 25. <br><br>Muitos engraçadinhos diziam às moças das lotéricas que dariam a elas de 10 a 20% do prêmio. A rádio esportiva, então, teve que alterar sua maneira de trabalhar. Era uma rotina de décadas a ser totalmente modificada. Agora tínhamos, além do placar geral dos campeonatos, a planilha só da loteria esportiva. Além dos jogos normais, havia os da loteria, que eram a preferência para serem divulgados.<br><br>Nos do “QG dos Esportes” da Radio Bandeirantes, tínhamos trabalho redobrado. As comunicações eram precárias. Tínhamos que fazer muitos jogos pelo telefone e ainda não havia o recurso do DDD (Discagem Direta a Distância). A coisa ainda funcionava na base do interurbano, 101, pela telefonista de Telesp. Ligávamos para ela, que pedia o número a ser discado e fazia a ligação.<br><br>Para os jogos do Nordeste não havia problema, tínhamos um especialista em ondas curtas de 25 e 49m, que era o seu Pedro dos Santos, magnífico rádio-escuta a longa distância, Dava os resultados ao pé da letra, quase ao mesmo tempo da Rádio Tupi, a emissora que investiu muito na loteria esportiva, conseguindo canal direto da telefônica e um aumento de audiência. O problema maior era quanto o "teste" tinha jogo do Mato Grosso. Ali estava a dificuldade, demorava muito para se conseguir falar com a emissora de lá.<br><br>O problema foi resolvido quando a Tupi pegou linha direta de lá, aí a gente pegava os gols pela sintonia “AM” do Alto do Sumaré. Enquanto não deu zebra, tudo foi alegria. Estávamos, já havia quase um ano, de loteria esportiva que era uma dificuldade em fazer os treze pontos devido a algumas zebras. Eis que um dia o bolão do pessoal da rádio não só do pessoal do esporte, mas de outros funcionários, acertou os treze pontos do cartão. Zanforlim, avisa ao Fiori pela linha interna, eu disse a ele.<br><br>Não imaginávamos que o Fiori fosse falar ao microfone. E logo que ficou sabendo gritou: <br>_“Ganhamos na loteria esportiva, torcida brasileira. Loteria esportiva também é com a Bandeirantes, até nos 13 pontos!”.<br><br>Fiquei sabendo por intermédio do Milton Peruzzi, que estava em Campinas, na transmissão de um jogo, que o Enio Rodrigues, que também estava lá, quase jogou o microfone cabine abaixo e já falava em chegar no Murilo e pedir a conta na segunda feira. O rateio de cada cartão saia na segunda-feira ao final da tarde. Foi um tal de neguinho passar o dia esfregando as mãos…<br><br>Leporace estava no meio dos felizardos do Bolão mas, macaco velho, preferiu esperar o rateio de cada cartão, que sempre eram poucos. Mas naquele teste teve milhares de acertadores, coube a cada cartão 1.110,00 (um mil e cento e dez cruzeiros). Dez por cento do prêmio da italiana do Bixiga.<br><br>Leporace tirou o maior sarro na terça-feira; aqueles mil e cem cruzeiros iam ser repartidos por não sei quantas pessoas, acho que dava para comer um “PF”.<br>As histórias iam aparecendo com os milionários da loteria esportiva, quem mais ficava bravo eram aquelas pessoas que entendiam de futebol, que faziam, quando muito, seis ou sete pontos. Quem mais acertava eram as mulheres. Como podem “umas burras” que nem sabem o que é futebol acertarem tanto, perguntavam-se os catedráticos em futebol.<br>O primeiro milionário da loteria esportiva foi um carioca que acertou sozinho e ganhou onze milhões de cruzeiros. Foi num jogo que a zebra apareceu logo no sábado à tarde. A zebra foi o Juventus que ganhou do Corinthians por 1 x 0 gol de Ataliba.<br><br>O nome do sortudo era Eduardo de “tal” e mal recebeu o prêmio, dividiu com uma moça; era sua namorada, que se casou com ele em comunhão de bens, na semana seguinte do recebimento. Ficou sendo chamado de Dudu da loteca. E todo mundo tinha esperança de um dia ser um Dudu da loteca. Por incrível que pareça, não sei quanto tempo passado e os jornais diziam que Dudu da Loteca já não era mais rico. Havia investido numa rede de hotéis, fez falcatruas, não pagando seus credores, e acabou perdendo tudo e olhe lá se não foi preso.<br><br>Outro milionário foi João Boiadeiro, de um lugarejo do estado de Goiás, que ganhou sozinho num teste; seu prêmio foi de mais de cinco milhões de cruzeiros que, por mais que a caixa escondesse o nome do ganhador, naquele tempo tinha que colocar nome e endereço e as pessoas ficavam sabendo, pois no domingo os ganhadores diziam ter feito os 13 pontos, sem imaginar que o prêmio poderia ser alto. Então a imprensa também ficava sabendo e ia ao local fazer a reportagem com o ganhador. João Boiadeiro caiu nas graças do Brasil, por ser um homem muito simples, que não tinha quatro ou cindo dentes da frente, e disse com toda simplicidade que agora ele podia colocar uma prótese. <br><br>Não saiu do seu torrão. Uma cidadezinha lá no meio do mato comprou oito televisores e colocou em vários pontos da cidade para o povo assistir. Os próprios moradores faziam a segurança pessoal dele.<br>História hilária, contada pelo jornal, foi a de um apostador de São Paulo que fez o jogo e disse a um amigo: se eu ganhar, reparto o prêmio com você. Ganhou, e cumpriu a promessa. Seu prêmio foi de 300.000,00.<br><br>Levou o amigo na Caixa Econômica Federal, no Brás, onde se faziam os pagamentos das loterias, federal e esportiva; mandou colocar 150 mil em sua conta e na do amigo. Esse ganhador não quis saber de poupança, investiu seu dinheiro comprando duas farmácias; uma na Praça da Bandeira, encostada ao Hotel São Paulo, e outra na Rua Frederico Steidel, perto do Largo do Arouche. O que deu na cabeça dele não se sabe, mesmo porque farmacêutico ele nunca foi e, trabalhar em farmácia muito menos.<br><br>Conclusão: perdeu o que ganhou. Seu amigo que viu cair em seu colo cento e cinqüenta mil cruzeiros estava recebendo dividendos da poupança.<br>