Rua Maria Zélia, Itaiaú
Sustentada pelo sol e pela chuva, aquela terra era vermelha, chão firme. Canaletes irregulares formavam-se pela força da água que descia rua abaixo. Para descermos em cima do nosso sonho voador, fazíamos de estrada as saliências formadas entre os sulcos. Num momento esquecíamos nossos medos e, no limite da emoção, dávamos um cavalo-de-pau.
Em um solo batido e maltratado era comum uma escoriação em um dedo, uma unha perdida, um sapato gasto, pois as pequenas pedras incrustadas no solo aumentavam o atrito e o risco de acidente. Entretanto, isso tornava a disputa mais acirrada.
Quando o sol se punha, cada um pegava o seu carrinho, já se preparando para as modificações do dia seguinte. Acertar rodas, engraxar, executar pequenos reparos; enfim, fazer de tudo para se tornar o melhor, o primeiro.
Sei lá o porquê, mas era proibido andar de carrinho de rolimã. E lá vinha o guarda!
Avisados por algum colega, pegávamos o carrinho embaixo do braço, desajeitados, e desaparecíamos nas transversais. Era o primeiro exercício de liberdade e anarquia.
Gostávamos daquele pega-pega institucionalizado, no qual o bobo era sempre o mesmo, e nada fazia para mudar seu papel. Estava cumprindo sua ordem sem muita convicção e após marcar presença, sempre na mesma hora, ia-se embora.
Qual não foi nossa surpresa com a chegada do desenvolvimento, do asfalto. Nossas fantasias cresciam, pois já não haveria tanto atrito e a velocidade das emoções atingiria o máximo. Cada metro daquele tapete preto foi escondendo a terra batida e, junto com ela, todo o passado. Eu ficava triste ao verificar que aquela terra não receberia mais seu alimento, o sol e a água. A passagem, entretanto, foi lenta e convivemos com ela um período, correndo ora no trecho asfaltado, ora na terra batida.
Aos poucos, fomos percebendo que o asfalto não propiciava o fator surpresa, não havia pedrinhas ou canaletes inesperados e os desvios eram desnecessários. As emoções foram desaparecendo. No final de cada tarde, nos fundíamos no horizonte, com nossos carrinhos de rolimã e as sensações sufocadas no peito, como se o asfalto tivesse também por ali passado.