Vera beirava cinquenta anos e teria uns vinte e quatro anos e alguns meses de efetivo exercício como regente de primeiras séries quando tudo aconteceu. Nos últimos tempos, alternava letras com colegas comissionadas, garotinhas recém-formadas, dizendo-se preterida, humilhada, desprestigiada. No início do ano, haviam lhe dado uma primeira série de letra M, problemática, multirepetente. Cobravam-lhe disciplina e Vera se defendia explicando que caminhava no ritmo deles, lento e moroso.<br><br>Filha de pais portugueses, educada e criada com esmero, passara a adolescência dentro do uniforme impecável, saia pregueada, blusa branca de fustão, sapatos pretos de verniz, um brinco. Ao deixar o colégio de freiras, matriculara-se no Instituto de Educação, a velha e tradicional Escola Normal, deixando para trás o chapelão e a fita azul da cintura que tanto a enchiam de orgulho. Do Instituto de Educação, de onde saíra com todas as verdades prontas, trouxera um velho hábito, requintado, o de cumprimentar amigos em francês, “bon jour, mon ami!”.<br><br>Começara como então se começava – pelo interior de São Paulo. Juntara pontos em uma escola isolada, mista, de roça, sonhando retornar com a devida pontuação para assumir uma cadeira na cidade de São Paulo, onde nascera e fora criada e onde deixara todos os sonhos de normalista, dourados aqueles anos. Naqueles tempos acreditara em um Brasil, “País do Futuro”, futuro este via agricultura, “somos um País Agrícola”. Nossa língua “era silábica, a nossa língua!". Radicalizava e, ano após ano, alfabetizava pelo método silábico, pois no final todas as classes teriam que cair na silabação, “se a língua deles era global, problema deles!”.<br><br>Acreditara que a nossa independência viria do petróleo, que era nosso. “O petróleo é nosso” e também que nosso povo, se alfabetizado, enriqueceria nesta terra imensa, onde “em se plantando tudo dá!”. Aos sábados, dançara ao som das grandes orquestras, em longos vestidos de seda, rodopiando valsas em distantes bailes de formatura.<br>Em casa, nas tardes amenas, dedilhara acordes de piano, em estudos, sonatas, o piano alemão, chapa de metal, cordas cruzadas. <br><br>Hoje, chorava muitas vezes no ombro amigo das que chamava “amiguinhas”, dizendo-se preterida, descartada, olhada com desconfiança, “porque envelheci?". O marido, um dentista, proibira-lhe cursar uma faculdade afirmando que jamais permitiria o que considerava um abuso: “duas jornadas fora de casa? Nem sonhar!”. E no apartamento lindo nos Jardins, ao lado da Avenida Paulista, um por andar, Vera, que não tivera filhos, via as tardes se estenderem vazias, ociosas, porque estavam em greve, reivindicando melhores salários. Colocando-se frontalmente contra essa bobagem de greve, o marido proibira-lhe qualquer participação em passeatas e coisas do gênero, rotulando-as como “coisa de arruaceiro e de vagabundo”!<br><br>Dentro do consultório luxuoso, som ambiente, recepcionista perfumada, o marido, que obturava dentes contando sulcos, faces, passou o maior sabão em Vera. “Onde já se viu querer sair carregando faixas feito uma mulherzinha qualquer?”. Passeatas, assembléias, faixas e cartazes, dizia ser coisa de vermelhinho, de esquerdinha, “um pessoal ultrapassado, absurdo!”. No consultório do marido, com porteiro desdentado e faxineiros ostentando mais janelas do que todas as do prédio juntas, Vera corrigia cadernos e torcia esperando o final da paralisação. Aderira porque precisava dar uma força ao movimento, que achava justo.<br><br>Imobilizada diante daquele marido controlador, neste ano a carinha dos alunos era de cortar o coração, dava pena. “Ah, bem, se você os visse…”. Vera não atinava o porquê desta miséria de hoje. Ela, que alfabetizara durante tantas décadas, via o povo empobrecido, miserável. Colocara tanta fé no que chamaram de “o grande milagre”, mas, ao seu redor, passavam pessoas famintas, muitos morando em viadutos, se drogando, dormindo nas ruas, enrolados em papelão.<br><br>O “petróleo é nosso?”, este desembocara na maior crise, fazendo com que nestas terras extensas onde “em se plantando tudo dá", plantassem cana-de-açúcar para alimentar carros a álcool. A industrialização de JK, da qual Vera tanto se ufanara, gerara indústrias hoje sucateadas. Paradoxalmente, um sindicato forte surgira justo no ABC, nas multinacionais? Pode? Dá para entender tanta contradição? Certinha, quadradinha, formal, perdida diante de tantas transformações, hoje Vera procurava falar um português menos elaborado, evitava mesóclises, palavras difíceis. Até a famosa saudação em francês, só a fazia após olhar os corredores da escola com receio de que a jovem guarda a ouvisse e risse de sua erudição.<br><br>Quando chegaram as punições e Vera, vendo o nome na lista dos grevistas que estavam em inquérito administrativo, a aposentadoria perigando, as promoções perdidas, as colegas chorando diante das punições desenfreadas, a escola em pé de guerra, sentada no lado direito da lista, perplexa, pasma. “Juro que não sabia, não imaginava que houvesse uma lei que nos proibisse entrar em greve!” – repetia parecendo não acreditar na gravidade da situação.<br><br>***<br><br>Contam que houve, uma vez, uma geração do sol, em anos que disseram dourados. Teríamos sido nós esta última geração do sol, a dos dourados anos? Ou teríamos apenas permitido que eles tocassem “smoke gets in your eyes?”.<br>