Por volta de 1950, morávamos do Ipiranga, num cortiço onde viviam cerca de 20 famílias, gente humilde, trabalhadores que com dignidade tentavam dar a seus filhos algum destino melhor do que tinham. Meu pai, pedreiro, juntamente com os irmãos mais velhos, não media distancias e dificuldades para suprir as necessidades da família.
Nem sempre as coisas corriam bem. Mas lutar e através do trabalho conseguir pequenas conquistas era o que meus pais sempre fizeram… Pequenas, mas sempre importantes. Em época de Natal, já não acreditávamos em Papai Noel, mas aguardávamos sempre um brinquedinho que nunca faltava.
Num Natal, a coisa devia estar difícil, os poucos recursos eram destinados às necessidades básicas; porém aguardei o amanhecer com aquela expectativa: O que será? O pequeno presente era sempre colocado em baixo da cama… Um cavalinho de papelão prensado, um revolverzinho de espoletas, um caminhãozinho de madeira ou outros que naquela hora tinham muito valor para mim…
Daí uns dias quebravam-se e lá iam jogados nos cantos e esquecidos. Naquele Natal, acordei e ao passar as mãos por baixo da cama, nada senti, levantei-me e agachei-me procurando por algo que não existia. Naquela hora… Frustração. Hoje a doce recordação de que aquele presente NÃO recebido FOI O MAIS IMPORTANTE QUE RECEBI.
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